Entrevista RBE | Rafael da Cunha Lara, Elisa Maria Quartiero e Lucídio Bianchetti | "Trabalho Ubíquo na Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação"

A Revista Brasileira de Educação (RBE), em seu volume 24, traz o artigo "Trabalho Ubíquo na Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação: In/Extensificação e Multitarefa", de autoria de Rafael da Cunha Lara, Elisa Maria Quartiero e Lucídio Bianchetti. Confira bate-papo com os pesquisadores sobre as condições que as novas tecnologias impõem à atuação de docentes. "A questão de fundo é que, em geral, essa otimização não é acompanhada de melhores condições de trabalho e, em muitos casos, o que existe é um aumento no número de atividades e o trabalho em tempo integral."

Lucídio Bianchetti, Elisa Maria Quartiero e Rafael da Cunha Lara, autores da pesquisa publicada na RBE

Como as tecnologias digitais têm alterado a relação de trabalho no campo da atividade docente? Vocês chegaram a identificar 80 tipos de atividades que extrapolam o tripé ensino, pesquisa e extensão?

Exato. A maior parte destas outras atividades está relacionada à gestão universitária: chefias ou subchefias de departamentos, coordenações de curso, designações para comissões e relatorias diversas, bancas de seleção discente e docente, além de toda a parte burocrática nos cadastros da produção acadêmica, de pareceres para comitês e periódicos científicos. Se decompormos cada um desses processos de trabalho, percebemos que pouca coisa é rotineira na atividade docente vista no senso comum como “dar aula” ou “fazer pesquisa”. Vale lembrar que em muitos casos houve um enxugamento nos quadros técnico-administrativos justificado pela informatização de processos que, na prática, têm sido assumidos pelos docentes. Também por isso as relações entre tecnologias digitais e trabalho docente são dialógicas. De um lado temos a informatização de muitos processos, de outro, os professores vão engendrando por si novas formas de trabalhar com as tecnologias.

A pesquisa mostra que as alterações são percebidas com mais profundidade por docentes que estão há mais tempo em atividade e que, portanto, desenvolviam suas funções em tempos mais “analógicos” por assim dizer. As facilidades de desenvolver certas atividades com o uso de tecnologias, de acesso aos pares, à produção científica recente e à otimização de tempos são inegáveis. A questão de fundo é que, em geral, essa otimização não é acompanhada de melhores condições de trabalho e, em muitos casos, o que existe é um aumento no número de atividades e o trabalho em tempo integral. Aqui não se trata de um problema tecnológico, mas laboral (de organização e gestão do trabalho a partir das demandas de cima para baixo) e cultural (o modo de se comunicar a qualquer tempo e de estar sempre ao alcance das demandas de trabalho). O conceito de trabalho ubíquo que estamos adotando instrumentaliza essa ideia de onipresença em via de mão dupla entre os campos do trabalho e do não trabalho.

O que os motivou a realizar tal pesquisa e como a conduziram em termos de professores e programas participantes dos questionários?

Esta é uma das muitas pesquisas que têm sido conduzidas nos últimos anos no âmbito do grupo de pesquisa TRACES (Trabalho e Conhecimento no Ensino Superior). Uma das linhas de investigação do grupo é a abordagem das relações entre trabalho e tecnologias, sobretudo no campo da Educação. Nesta pesquisa unimos as trajetórias e experiências de investigações anteriores sobre a inserção de tecnologias no trabalho e na educação para entender o que mudou e o que não mudou no trabalho docente e como as mudanças são percebidas em termos de execução dos processos de trabalho. Na pesquisa selecionamos docentes de programas de pós-graduação em educação consolidados, ou seja, que já tivessem ao menos uma tese defendida, por entendermos que nesses campos se faz um uso intenso de tecnologias digitais e móveis no ensino, na pesquisa, na orientação e publicização da produção acadêmica. Ao todo, 48 Programas foram envolvidos na pesquisa em todo o Brasil, em um universo de 1.169 docentes convidados a responderem um questionário eletrônico com perguntas fechadas e abertas sobre as alterações no seu trabalho com o uso de tecnologias. No recorte que trazemos à tela (a pesquisa possui ainda outras dimensões) priorizamos as alterações que relacionam as características ubíquas do trabalho com a sua intensificação, extensificação e com as práticas temporais multitarefa adotas por docentes, como problemática emergente no trabalho docente.

As tecnologias digitais são geralmente enaltecidas por propiciar ganhos de tempo e otimização de processos. Mas a pesquisa evidencia um tensionamento das relações de trabalho, como indistinção com o tempo de lazer, levando a uma precarização do trabalho e mesmo ansiedade e esgotamento. O que isso evidencia em termos desse novo arranjo da atuação docência?

É importante frisar, para não cairmos na ideia de um determinismo tecnológico, que não são as tecnologias em si que propiciam melhores ou piores condições de trabalho. Para uma parte significativa dos docentes, inclusive, a incorporação de tecnologias melhorou os processos de trabalho. Mas é necessário evidenciar esse outro aspecto, próprio das condições de trabalho docente: pressão por um produtivismo acadêmico, prazos exíguos, intensificação das demandas urgentes, facilidade de comunicação que permite o acesso aos pares a qualquer tempo. É nesse contexto que o trabalho se expande espacial e temporalmente para outros âmbitos da vida social e nos quais a tecnologia é utilizada como mecanismo das estratégias mobilizadas pelos docentes. Sob esse aspecto o estudo evidencia algumas práticas, como a de realizar muitas tarefas ao mesmo tempo, estar sempre de prontidão para atender às demandas que podem chegar a qualquer momento, inclusive com a interrupção de outras atividades, e reservar uma parte dos momentos de lazer para adiantar o trabalho. São práticas de uma autoexploração do trabalho, que corroem as fronteiras de tempos e espaços de trabalho e de não trabalho, potencializados principalmente pelos aspectos comunicacionais das tecnologias. Veja que essa também é uma questão cultural no uso de tecnologias, relacionada à compressão do tempo, à aceleração do ritmo de vida e à fragmentação da atenção a diferentes fontes e processos comunicacionais, o que pode comprometer o trabalho intelectual tipicamente realizado sob atenção profunda, concentrada. O que vimos na pesquisa é a ampliação dos espaços de trabalho e a extensão dos tempos de trabalho on-line/off-line, interiorizadas por muitos docentes em suas práticas, criando um arranjo de trabalho a qualquer momento e a qualquer tempo, ubíquo.

Ainda que fuja do escopo da pesquisa apresentada, vocês acreditam ser possível um arranjo, seja de cultura de trabalho ou mesmo de regulamentações, que traga um uso mais saudável dos potenciais das TDs sem levar a tal quadro de precarização?

É difícil arriscar uma previsão em um contexto de profícuos potenciais tecnológicos coexistindo com precárias condições políticas e econômicas no mundo do trabalho. Os estudos da sociologia ou da psicologia do trabalho, por exemplo, não são muito animadores nesse sentido. O “espírito do novo capitalismo” tem incluído, além da individuação e da flexibilização ardilosa, formas como a uberização do trabalho ou o chamado capitalismo de plataforma, com tendências ao desemprego tecnológico e fragilização das relações de trabalho que, em conjunto, acirram o quadro de precarização. No caso do trabalho docente brasileiro, em um cenário de desregulamentações nas políticas educacionais (fomento ao ensino domiciliar na educação básica, ao ensino híbrido na educação superior e a programas stricto sensu a distância, por exemplo), cortes orçamentários e previsão de enxugamento dos quadros docentes, além das anunciadas reformas trabalhista e previdenciária, o mais provável é que se recorra ao uso das tecnologias mais como estratégias de enfrentamento à precarização do que como tecnologias criativas e potencializadoras do trabalho e da educação. A questão é saber por quanto tempo essas tensões se sustentarão sem uma ruptura. De todo modo, acreditamos que qualquer saída frente ao quadro de intensificação da precarização do trabalho que se anuncia não será no plano individual, mas pela busca de soluções coletivas. Nesse sentido, as associações científicas e as entidades de classe tendem a representar, cada vez mais, um importante papel.

 

 

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