“Ninguém atira pedras em árvore que não dá frutos” |por Nilson Cardoso | um diálogo com o artigo Estágios supervisionados e o PIBID

por Nilson Cardoso

Presidente do Forpibid-rp/Professor do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas FAEC/UECE

“Ninguém atira pedras em árvore que não dá frutos” - um diálogo com o artigo Estágios supervisionados e o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência: duas faces da mesma moeda? (GARRIDO e LIMA, 2019).

É com um dito popular que lanço opinião sobre à mais expressiva crítica ao Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – Pibid. O lugar de fala é de um professor e pibidiano, o que me faz destacar a escrita defensora do programa, sou um ativista pelo Pibid e por conseguinte, pela formação de professores. Seria incoerente, mesmo que tentando ter alguma isenção analítica, qualitativamente impossível, desconsiderar essa defesa. Resta saber se tudo é isento. Cabe destacar que também sou docente de curso de licenciatura e que atuo especificamente no campo dos estágios: conheço as duas faces dessa moeda.

O Pibid padece de alguns dilemas, mas seguramente o trabalho desenvolvido por muitas instituições de ensino superior (IES) no país se opõe à lógica do livre mercado, já que houve ação investigativa, apropriação do que seja docência e exercício sobre práticas colaborativas, atestados por gestores. Com esse programa avançamos em um elemento fundante na formação de professores, a identidade docente, em especial com a atuação na escola pública. Em paralelo, deu sentido e significado para a categoria “formador”, outro elemento que não “colava” aos fazeres de professores que atuam nos cursos de licenciatura, em especial aos das áreas das ciências natureza e matemática.

Com o Pibid, além da aproximação da universidade/escola, tivemos a assunção de um sujeito pouco considerado nos processos de formação, o professor da educação básica, atuando como coformador. Sua prática e seu saber experiencial passaram a ser considerados nos processos formativos e, juntos com os formadores, viu-se convergir sujeitos e espaços que não dialogavam, efetivamente. Nem o estágio trouxe essa interrelação e interterritoriedade na formação de professores.

Concordo que houve transferência do dinheiro público para o privado, embora em proporção bem inferior às matrículas em instituições particulares, uma realidade que abarca a maioria dos cursos de formação de professores no país. Deixá-los de fora não resolveria a questão, talvez só reforçaria o fosso que há entre a formação idealizada, em que se excluam, por justiça, as experiências exitosas nessas instituições. Se faz necessária uma política de transição, enquanto não haja inversão dessa realidade. Cabe destacar que a crítica possui pertinência, mas leva os leitores à interpretação equivocada que as IES privadas que têm a modalidade EAD recebam concessão de bolsas do Pibid. Uma inverdade, um equívoco, pois só houve concessões para o sistema UAB/Capes, cuja participação só envolvem universidades públicas e uma pequena parcela de seus docentes.

Infelizmente, embora o artigo seja recente (publicado em 11/03/19), apresenta-se uma fala ultrapassada em termos legais (portarias) e dos contextos atuais (ausência da discussão sobre o Residência Pedagógica). Enviesada por lançar uma cortina de fumaça para justificar uma ausência de proposição de algo efetivamente inovador e que superem a proposição teórica ou realizada em situações pontuais nos cursos de licenciatura, como o estágio sendo espaço da práxis, “com e na pesquisa”. Efetivamente, como um componente de constituição da identidade docente, infelizmente, reforço, infelizmente o estágio ainda não atingiu, na sua maioria, essa condição.

Outra concordância é que o Pibid é um programa, é transitório e não configura como uma política de Estado. Atuei, em parceria com muitos outros colegas na mudança dessa situação, um movimento que agregou muitos professores, estudantes e gestores, um ato político que também passou desapercebido da análise. Não obtivemos o êxito, ainda. A trajetória trilhada, os embates e as permanências, não seriam exercícios baseados na criticidade e na reflexividade? Num futuro breve teremos mais análises nesse sentido.

Ainda nessa questão, precisamos avançar para uma política de estado efetiva que insira o estudante de licenciatura na cultura escolar pública, apreendendo seus dilemas e, sobretudo, suas potencialidades, vinculando-os com os seus futuros contextos de atuação, dando-lhes identidade. Pesquisas já apontam para esses avanços, com análises oficiais da CAPES (GATTI et al , 2014) e por estudos recentes que confirmam o mesmo (ANDRÉ, 2018), afora tantos outras pesquisas expressas em dissertações, teses, livros e artigos que compõem um estado da arte não levado em consideração, que mostra mais avanços que limitações, como tenta imprimir o artigo das autoras ao Pibid.

Reconhecem, por outro lado, que o Programa já está presente na LDB, no PNE e que nas DCN da formação de professores (Res. Nº 02/2015-CNE) há destaque para a valorização à iniciação à docência, “provavelmente inspirada na experiência do PIBID”. Mais oporturno seria utilizar o advérbio para ‘certamente’, pois a referida resolução tem mais do que inspiração, pois notam-se os mesmos ditos da portaria 096/2013-CAPES, documento que balizou o Pibid até fevereiro de 2018. Pois bem, se o Pibid “não se enraíza nos cursos de licenciatura na perspectiva de fortalecer seu projeto político-pedagógico em seu todo”, a reformulação obrigatória terá nele o elemento de reconfiguração e superação, dando acerto dessa “falha”, podendo ter impacto até no estágio. Ganhamos todos!

Por fim aqui e lá no começo, a análise leva a interpretação que o Pibid tem sua mácula mor o fato de ser um programa que “privilegia” alguns estudantes com bolsas. Ora, as pontuais concessões de bolsa pesquisador - PQ/CNPq não criam “castas” na pós-graduação, nas pesquisas e por que não nos cursos de licenciatura com esse pequeno incentivo à investigação? Temos bolsas Pibic para todos, em especial nos cursos de licenciatura? E se elevarmos essa discussão para as bolsas de extensão, de monitoria? Por que a ausência dessa análise? E a questão fundamental: algum dia teremos bolsas para todos? Parecem não levar essa consideração para os nossos espaços de atuação, lançando crítica à uma experiência que tem mais a nos apontar para mudanças efetivas. Sem dúvida uma perfumaria que a essência não agrada.

O artigo é uma boa provocação para uma análise mais sistemática sobre a diversas dimensões que o Pibid atingiu, para além das divulgações entusiastas, como é sinalizado no artigo, centradas em metodologias e recursos pedagógicos produzidos. Hoje temos outros elementos precarizantes e cerceadores tanto no Pibid como no Residência Pedagógica, trazendo à baila outras questões que merecem análise crítica, de forma a contribuir com a melhoria dessas experiências formativas e de inserção na docência. Precisamos revelar que a aproximação universidade/escola e a coformação (docentes formadores e da educação básica), em processos colaborativos são a mostra de uma verdadeira transformação das licenciaturas.

Referências

ANDRE, M. E. D. A. Professores iniciantes: egressos de programas de iniciação à docência. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro, v. 23, e230095, 2018.   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782018000.... Acesso em 07 de abril de   2019. Epub Dec 03, 2018.  http://dx.doi.org/10.1590/s1413-24782018230095

GATTI, B. A.; ANDRÉ, M. E. D. A.; GIMENES, N. A. S.; FERRAGUT, L. Um estudo avaliativo do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 2014. (Textos FCC, 41).

 

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