Entrevista com Luciana Gruppelli Loponte (FAE-UFRGS) |Artigo “Tudo isso que chamamos de formação estética” |RBE n.69|

Já está disponível no Scielo a edição de n.69 da Revista Brasileira de Educação (RBE), publicação da ANPEd. Dentre os artigos está “Tudo isso que chamamos de formação estética: ressonâncias para a docência”.  De autoria da professora Luciana Gruppelli Loponte (PPGE-UFRGS), a pesquisa aborda como a palavra “estética”, relacionada à docência, adquire um caráter confuso, superficial e, sobretudo, subestimado mesmo em meio acadêmico. Para além disso, evocando autores como Foucault e Nietzche, a pesquisadora do grupo Arteversa (CNPq/UFRGS) reivinda uma aproximação com a estética – livre de conceitos canônicos e em diálogo com a arte contemporânea – a fim de expandir as possibilidades tanto na formação docente quanto nas práticas escolares cotidianas. 

Confira entrevista com Luciana Gruppelli Loponte (PPGE-UFRGS):

A palavra “estética” vem recebendo diferentes utilizações num processo histórico de mais de dois séculos. É possível ver uma banalização, fragilidade ou superficialidade em sua utilização mesmo em meio acadêmico?

Penso que há, em certa medida, uma subestimação da potência dessa palavra no campo educacional, especialmente em pesquisas acadêmicas. Por um lado, restringe-se estética a uma ideia moderna de beleza quase sempre relacionada ao acesso a determinadas obras de arte, em geral, mais canônicas. Por outro, coloca-se a estética como algo restrito ao campo específico da arte, sendo supérflua e dispensável para uma discussão mais ampla sobre educação. Há muitos usos da palavra estética nas pesquisas acadêmicas sobre educação, mas surpreende o modo superficial com que essa discussão é trazida, muitas vezes sem um amparo filosófico e teórico mais claro.

Para além do viés do “belo”, qual o caráter mais amplo, de vida e política, muitas vezes deixado de lado num envolvimento com a “estética”?

Filósofos como Foucault e Nietzsche, aos quais me filio teoricamente, nos trazem outras perspectivas filosóficas para pensar sobre a relação entre arte e vida ou entre ética e estética. No Brasil, a pesquisadora Nadja Hermann faz um trabalho muito importante nesse sentido, ao resgatar o que ela chama de relação quase esquecida entre estética, ética e educação. Esses pensadores (e outros, como Rancière, por exemplo) nos ajudam a perceber o quanto a aproximação com a estética, em seu sentido mais ampliado, nos permite uma relação mais intensa conosco mesmos, com os outros e com o mundo em que vivemos e atuamos, muito além da apreciação ou “decodificação” de uma obra de arte ou do desenvolvimento de uma sensibilidade a coisas consideradas “belas”. Penso que muitos artistas contemporâneos, ao descolar-se da ideia de obra de arte emoldurada, por exemplo, e desejar intervir nos movimentos da própria sociedade sem esconder as suas próprias contradições e incongruências, materializam a expansão das possibilidades da estética. Poderia citar aqui artistas como Allan Kaprow, Joseph Beuys, Francis Alÿs, Emily Jacir ou a artista brasileira Mônica Nador, apenas para ficar em alguns exemplos.

Especificamente sobre sua pesquisa de teses, dissertações e anais de eventos, o que mais lhe chamou a atenção?

O que me chamou mais atenção foi os muitos usos que o termo “formação estética” ou “estética” podem ter nas pesquisas em educação no Brasil. Muitas vezes trata-se do termo como se fosse algo dado ou já estabelecido, sem que se tenha clareza ou ao menos se anuncie os pressupostos filosóficos que o amparam. A meu ver, o problema não são as várias perspectivas teóricas que usamos para tratar de formação estética, mas o quanto tais perspectivas são ocultadas diante de uma compreensão universalizante de estética, ligada privilegiadamente a certa ideia de belo, excluindo em grande parte as perspectivas e possibilidades abertas pelas produções artísticas contemporâneas.

Tendo em vista um discurso pedagógico prescrito ainda em vigor, o que a relação com outro viés da estética e da arte pode trazer em termos de reflexão e novas práticas tanto para a formação docente quanto para o cotidiano escolar?

Isto é justamente o que tenho perseguido nos últimos anos, juntamente com o meu grupo de orientandos do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS e com o ARTEVERSA – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência (CNPq/UFRGS). No nosso site (www.ufrgs.br/arteversa) temos disponibilizado algumas discussões nesse sentido, procurando atingir professores de todas as áreas, não somente da área de arte. Temos pensado (e pesquisado sobre) o quanto a aproximação da formação de docentes a uma dimensão mais expandida de estética, em especial contaminada por produções e práticas artísticas contemporâneas, pode abrir a docência a experimentar outras formas de pensar suas práticas pedagógicas e também a perceber de outra forma seus próprios alunos, por exemplo, fora de roteiros já estabelecidos ou de expectativas pré-definidas. Há, sem dúvida, no bojo dessa apropriação de estética, um forte componente ético e político.

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