Por uma escola rebelde – viagem ao território Zapatista de Chiapas

por Amanda de Oliveira

Estagiária de comunicação da ANPEd entre julho e dezembro de 2016, a estudante de jornalismo Amanda de Oliveira (UFG) visitou o território zapatista de Chiapas, no México, em outubro do mesmo ano. Em texto especialmente produzido para o portal da Associação, ela traz um relato de viagem no qual vem à tona essa importante história de resistência e de vislumbramento de uma educação autônoma e em profundo diálogo com seu povo e sua terra.

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Manhã fria de outubro na cidade de San Cristóbal de Las Casas, palco do levante Zapatista em 1994 em Chiapas, sul do México. Às seis horas parto para conhecer um dos maiores símbolos de rebeldia, luta e resistência dos povos indígenas na América Latina. O meu destino é o Caracol Oventik, uma comunidade autônoma zapatista que fica a aproximadamente 150 km de San Cristóbal.

Algumas horas de viagem de táxi em meio a uma região repleta de montanhas e florestas. A cada metro percorrido salta-me aos olhos a cruel desigualdade do estado de Chiapas. Ruas repletas de esgoto e lixo. Casas, umas sobre as outras, compunham um cenário tipicamente marginalizado. Um grande paradoxo: apesar de Chiapas concentrar grande porcentagem da indústria petroquímica do México e suas hidroelétricas produzirem outra considerável porcentagem da energia para o país, ainda assim existem regiões do estado que sequer possuem acesso à energia elétrica.

           
Foto: Nilton Rocha                                                                                                             Foto: Nilton Rocha

Além de todos os problemas estruturais do estado de Chiapas, um contexto de deficiência em setores como saúde, educação, política e distribuição de alimentos foi, gradativamente, transformando a indignação dos povos indígenas em rebeldia. Junto a isso, a aprovação e implementação do  Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), que passava a estabelecer a desregulação dos mercados e a privatização das empresas públicas, foi o estopim para o início da revolta camponesa.

“Chegamos, é aqui” – o motorista me avisa. Desço do carro e por alguns minutos tento encontrar o Caracol. Olho para o lado e, em meio ao cenário comum de toda viagem, avisto uma placa na lateral que sinaliza que eu estou em um território zapatista em rebeldia. Nela, já deixam claro: “Aqui manda el pueblo y el gobierno obedece”.

No entanto, a indignação dos indígenas não se traduziria em rebeldia caso um pequeno grupo revolucionário não tivesse chegado na Selva Lacandona em 1983. A intenção era gerar consciência nas comunidades indígenas e fornecer treinamento para todos que optassem por uma luta armada. Uma guerra popular declarada. Assim seria formado o Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN).

Me aproximo do portão de entrada do Caracol Oventik. Os Caracóis, assim chamadas as comunidades bases zapatista, são espaços que organizam e garantem a autonomia dos territórios zapatistas. Este nome é utilizado porque o caracol era um instrumento usado pelos indígenas para convocar os seus ancestrais maias. Em Chiapas, são cinco no total: La Realidade, Oventik, La Garrucha, Morelia e Roberto Barrios.


Foto: Amanda de Oliveira

Uma mulher, com uma touca preta sobre o rosto e só os olhos à mostra, faz a vigilância do local.

– Buenos Dias!
– Buenos Dias.

Depois de alguns instantes de silêncio percebo que ela não fala espanhol. Com o surgimento de um pequeno estranhamento naquele momento, ela logo chama outras pessoas para virem até mim. Três homens se aproximam, também com toucas pretas sobre os rostos e só os olhos à mostra. Após me apresentar e falar que gostaria de conhecer um pouco do cotidiano da comunidade, eles anotam minhas informações e, gentilmente, permitem a entrada, liberando um dos homens para me acompanhar pelo Caracol.

Do portão, no alto, avisto uma imensidão de terra cercada por muito verde. Uma estrada central guia nosso caminho. Dos dois lados, pequenas tendas de madeira com escritos e desenhos em suas paredes. Manuel*, que me guia, conta que as tendas são espaços destinados a setores específicos que constituem o Caracol – posto de saúde, comunicação, destinada a reuniões da Junta del Buen Gobierno, além de várias outras que vendem artesanato.

  
Foto: Amanda de Oliveira                                                                                 Foto: Amanda de Oliveira

Por todos os lados, a cada passo pela comunidade, me deparo com frases e palavra de ordem. Uma das melhores maneiras de entender a filosofia do movimento zapatista é analisar seus lemas, em que as palavras se armam para a luta coletiva por libertação. “Caminar Preguntando”; “Lento, pero Avanzo”. Este sugere a criação constante de um mundo novo, no próprio caminhar. O primeiro, propõe avançar ouvindo e respeitando todas as vozes que compõem o coletivo, mesmo que dessa forma, o andar se torne mais lento.

Ver de perto essa realidade revela o movimento para além de um grupo guerrilheiro, um exército popular. Os zapatistas propõem uma nova forma de relações sociais entre as comunidades e entre os seu próprios indivíduos. Relações já não capitalistas, entre numerosos coletivos de pessoas. Fala-se em uma nova forma de construir e lutar por um mundo mais justo e digno, onde caibam todos. Assim, já diz um outro lema: “Um mundo donde quepan muchos mundos”.

 
Foto: Amanda de Oliveira

Meus olhos tentam não perder nada ao longo do caminho. Mais à frente das tendas, chego em um enorme espaço aberto que parecia ser um local de confraternização. Ao lado, uma velha quadra de esportes. Olho para cima e a cesta de basquete, já gasta, estampa “Democracia”. Enquanto vislumbro todo o cenário, curiosa, pergunto:

– Manuel, o que te faz querer estar aqui?
– Ah, aqui nós plantamos nosso alimento, desenvolvemos nosso próprio modo de viver, que é mais coletivo que a de um trabalhador da cidade, por exemplo. Defendemos, juntos, o território que sempre pertenceu à nós indígenas. Decidimos, juntos, resistir.

Ser zapatista, para os indígenas de Chiapas, supõe reconhecer-se em três campos simbólicos que modelam sua identidade e orientam suas práticas coletivas: a liberdade, a luta e a terra. Os zapatistas, também como ato de reconhecimento, prezam e defendem o Abya Yala, nominação indígena para América, que significa tierra en plena madurez ou tierra de sangre vital.  

A prática ocidental de negar os nomes já existentes e atribuir novos foi decisiva para a política de colonialismo exercida sobre os territórios e os povos que já o pertenciam. Em um ato de defesa de suas terras e do direito de preservar suas origens, os indígenas propõem uma ruptura com a denominação proposta por Cristóvão Colombo, quando chegou ao continente, do que é a América, especialmente a América Latina.

 
Foto: Amanda de Oliveira

Comité Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral (CCRI-CG) do EZLN:
“Se equivocaron hace 500 años diciendo que nos descubrían. Como si hubiera estado perdido el otro mundo que éramos. Se equivocaron llamando “civilizar” a la acción de destruir, de matar, de humillar, de perseguir, conquistar, someter. Se equivocaron cuando a matar un indio le llamaban “evangelizarlo”. Se equivocan cuando a este asesinato hoy se le llama “modernizarlo”. Para ellos, nuestras historias son mitos, nuestras doctrinas son leyendas, nuestra ciencia es magia, nuestras creencias son supersticiones, nuestro arte es artesanía, nuestros juegos, danzas y vestidos son folklore, nuestro gobierno es anarquía, nuestra lengua es dialecto, nuestro amor es pecado y bajeza, nuestro andar es arrastrarse, nuestro tamaño es pequeño, nuestro físico es feo, nuestro modo es incomprensible” (9/03/2001)

A insubordinação, em termos gerais, segue o rumo da ressignificação da territorialidade e do território como espaço de formação da cultura e do sentido da vida.

“Lo que queremos es que seamos respetados todos, según nuestra cultura y nuestra forma de organización de trabajar, de nuestra creencia, de convivir y de entender la naturaleza. Nosotros somos parte de la naturaleza y respetamos la visible y lo invisible, respetamos la tierra porque es nuestra madre, no podemos vender y los que lo venden es porque no tienen madre, nosotros sabemos que la tierra no nos pertenece, sino que somos parte de ella, así lo entendemos nosotros, todo ese derecho nos lo quieren desaparecer, quieren que la matemos y destruyamos a nuestra madre” (CCRI-CG del EZLN, 9/03/2001).

 

Educação autônoma

Depois do questionamento, apenas sorrio para Manuel, que me retribui. Continuamos andando… Ele agora me leva para conhecer a Escuela Secundária Rebelde Autónoma Zapatista 1° de Enero do Caracol Oventik. Através da organização dos Caracóis, a educação é totalmente autônoma, ou seja, independente do Estado, seguindo um currículo, metodologia e estrutura próprios, desenvolvida por educadores indígenas.

  
Foto: Amanda de Oliveira                                                                                  Foto: Amanda de Oliveira

Entre os relevos, percorro as paisagens em volta da escola. Olhando ao meu redor, o cenário até parece o de um colégio comum, com o qual estou acostumada, mas as mensagens e desenhos vivamente estampados nas paredes, portas e janelas, feitos pelos próprios estudantes, não deixam de assegurar que o sistema autônomo de educação zapatista é um dos melhores exemplos de como resistir e re-existir.

O modelo de educação proposto pelos zapatistas tem sido desenhado e estruturado lentamente no território rebelde através do questionamento do sistema educativo oficial, porém, dedica-se sobretudo, a responder coletivamente à necessidade de uma real educação, que seja desenvolvida de acordo com os ritmos campesinos. Diante da guerra “invisível” do governo mexicano, as escolas se fortalecem porque conseguem se adaptar às necessidades da comunidade, promovendo a descolonização do pensamento e re-situando as escolas como espaços integradores, a serviço da vida indígena organizada em resistência.

No momento que percorremos as redondezas da escola alguns alunos nos seguem curiosos, outros correm por todos os lados e outros me olham de longe com um olhar de estranhamento. Entre as salas, da terra brota o verde: diversas hortas são cultivadas. Não me foi permitido entrar nas salas de aula, mas olhando de fora posso perceber que elas estão cheias. Avisto paredes coloridas, um quadro negro à frente e cadeiras dispostas em forma de círculo. Os jovens aguardam o começo das atividades.

   
Foto: Amanda de Oliveira                                                                                                       Foto: Amanda de Oliveira

Organizado coletivamente por meio das Juntas de Buen Gobierno, o Sistema Educacional Rebelde Autônomo Zapatistas para a Libertação Nacional (SERAZ – LN), que atua através de um plano e projeto únicos para toda região dos Altos de Chiapas, atende crianças e jovens no nível básico (primário e secundário). Em 2003 foi inaugurada a Escuela Secundaria Rebelde Autônoma Zapatista 1° de Enero, que possui um ciclo de três anos, em que o período escolar dura 30 dias consecutivos, incluindo finais de semana, com 15 dias de descanso em seguida.

As escolas zapatistas estão organizadas por níveis, mas sem estrita divisão por idade. Apesar de esta separação às vezes se dar por necessidades materiais, a filosofia é que as escolas tentam se adaptar às diferentes fases e necessidades dos jovens, que não estão necessariamente ligadas ao fator etário. Como resultado, há uma sala de aula repleta de estudantes de diferentes idades, o que reforça o princípio pedagógico crítico de que “nadie educa a nadie y nadie se educa solo”.


Foto: Amanda de Oliveira

As matérias cursadas pelos estudantes reforçam o que o movimento propõe e defende, como Educação Política, Humanismo, Agroecologia, Práticas de Cultivo, Leitura e Escrita entre outras. Buscam fortalecer a cultura indígena, resgatar suas tradições e o uso da língua local e promover uma relação harmoniosa com o ambiente natural e social a partir das necessidades da própria comunidade, permitindo também que os povos indígenas pensem sua cultura, sua origem e façam leituras críticas sobre a realidade a qual pertencem.

Manuel continua me guiando, agora para o percurso de volta. Ele me convida para sentar e descansar um pouco da caminhada. Nesse momento o sol já me força a diminuir os casacos. No alto do território, lado a lado, sentamos em um tronco de árvore entre a grama baixa. Em silêncio, contemplo novamente o Caracol em meio à imensidão verde. O sentimento é tão paradoxal quanto o estado de Chiapas.

*Por motivos de segurança, esse nome é ficcional.

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Indicação de leitura: 

Tese de Doutoramento
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Júlia Figueredo Benzaque

Universidades dos Movimentos Sociais:
aposta em sabres, práticas e sujeitos descoloniais

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