Edição n.60 da RBE – Revista Brasileira de Educação

Já está disponível no SciELO a edição de número 60 da Revista Brasileira de Educação (RBE) – vol.20 n.60 jan. – mar. 2015

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Rbe.60

Editorial

Iniciamos este editorial alertando para a recente mobilizac?a?o do Ministe?rio da Educac?a?o (MEC) em torno de uma possi?vel redefinic?a?o da poli?tica curricular nacional. Apesar do cena?rio poli?tico indefinido, consideramos importante registrar a preocupac?a?o da RBE diante da possibilidade de o MEC propor uma Base Nacional Comum, estabelecendo um curri?culo mi?nimo e estreitamente vinculado aos sistemas de avaliac?a?o em curso. Reforc?amos, portanto, a necessidade de uma poli?tica curricular nacional construi?da sobre bases democra?ticas com ampla participac?a?o da comunidade acade?mica e educacional e que considere a diversidade cultural, social, econo?mica, educacional e poli?tica do pai?s, como forma de garantir que as desigualdades educa- cionais na?o se aprofundem.

Tendo como horizonte as poli?ticas pu?blicas, este nu?mero 60 da RBE reflete a amplitude e a complexidade das pesquisas educacionais contempora?neas em artigos que discutem as poli?ticas educacionais no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal. Os artigos revelam a atualidade e a pertine?ncia de estudos que discutem a respeito de poli?ticas educacionais, apontando seus fundamentos e implicac?o?es para a quali- dade do ensino, particularmente da rede pu?blica. Os autores lanc?am um olhar cri?tico sobre a expansa?o e a internacionalizac?a?o da educac?a?o superior, articulando-as ao processo de privatizac?a?o em curso nesse ni?vel de ensino. Outras questo?es candentes da cena educacional sa?o igualmente abordadas em artigos que se voltam para o en- sino me?dio, a educac?a?o infantil, a educac?a?o de jovens e adultos, a escola inclusiva e a transdisciplinaridade.

No primeiro artigo, “Privatizac?a?o da educac?a?o: experie?ncias dos Estados Unidos e outros pai?ses”, Steven J. Klees e D. Brent Edwards Jr. analisam propostas de privatizac?a?o da educac?a?o nos Estados Unidos e mostram de que maneira os modelos neoliberais privatistas esta?o vinculados a discursos conservadores que, ancorados em dados pouco confia?veis, mas com forte apelo midia?tico, visam desacreditar a qualidade da educac?a?o pu?blica naquele pai?s.

Ainda sobre o tema da privatizac?a?o, no artigo “Poli?ticas de expansa?o da educa- c?a?o superior no Brasil: 1995-2010”, Deise Mancebo, Andre?a Araujo do Vale e Ta?nia Barbosa Martins expo?em o panorama da privatizac?a?o da educac?a?o superior no Brasil, promovido pelo governo federal desde os anos 1990. Analisam-se o crescimento e os rumos da privatizac?a?o, esta associada aos interesses empresariais e a? mercantilizac?a?o do conhecimento cienti?fico e tecnolo?gico produzido nas universidades.

Com foco na expansa?o da educac?a?o superior no Brasil, no artigo “A poli?tica pu?blica de expansa?o para a educac?a?o superior entre 1995 e 2010: uma abordagem neoinstitucionalista histo?rica”, Cristina Helena Almeida de Carvalho traz para o cen- tro das ana?lises o papel histo?rico-poli?tico das instituic?o?es e de seus atores, destacando o poder de intervenc?a?o das instituic?o?es educacionais e de seus atores nas poli?ticas adotadas e a possibilidade de provocarem inflexo?es ou rupturas na agenda dominante.

O artigo de Emi?lia Rodrigues Arau?jo e Si?lvia Silva, “Temos de fazer um cavalo de Troia: elementos para compreender a internacionalizac?a?o da investigac?a?o e do ensino superior”, tambe?m traz como tema?tica discusso?es sobre o ensino supe- rior. O texto apresenta uma pesquisa realizada com gestores de universidades e visa problematizar a variedade de sentidos por eles atribui?dos a? internacionalizac?a?o do ensino superior em Portugal e, em decorre?ncia, as estrate?gias adotadas para promover poli?ticas susceti?veis de melhorar a qualidade da educac?a?o superior.
O artigo “Instituic?o?es de ensino superior pu?blicas em Portugal: sua adminis- trac?a?o sob as premissas da New Public Management e da crise econo?mica global”, de Miguel Lira, Miguel Gonc?alves e Maria da Conceic?a?o da Costa Marques, fecha o conjunto de textos que analisam as repercusso?es das poli?ticas neoliberais sobre a educac?a?o. Com foco no contexto portugue?s, os autores fazem uma revisa?o da litera- tura sobre o cena?rio da administrac?a?o das instituic?o?es pu?blicas de ensino superior e analisam o impacto da introduc?a?o da New Public Management, adotada para imprimir maior eficie?ncia das instituic?o?es diante da austeridade orc?amenta?ria decorrente da crise econo?mica no pai?s, com efeitos danosos para o ensino superior pu?blico em Portugal.

Paolo Nosella, no artigo “Ensino me?dio: unita?rio ou multiforme?”, renova o debate sobre o lugar do ensino me?dio, hoje, no Brasil. O autor defende que esse ni?vel de ensino dete?m uma posic?a?o pedago?gica crucial no percurso formativo dos indi- vi?duos, na?o podendo, portanto, ser reduzido unicamente a um elo entre os ensinos fundamental e superior. Apoiado nas ideias de Gramsci, sustenta a exige?ncia de uma ampla reforma e sua valorizac?a?o no pai?s.
No artigo “Alfabetizac?a?o de jovens e adultos: qual autoestima?”, Maria Lu?cia Ferreira de Figueire?do Barbosa apresenta uma pesquisa sobre autoestima realizada com estudantes em processo de alfabetizac?a?o e docentes da educac?a?o de jovens e adultos. Os resultados revelam que o tema e? visto de diferentes maneiras pelos participantes e evidenciam a necessidade de aprofundar o debate, tendo em vista as implicac?o?es da autoestima no e?thos dos alfabetizandos.

O artigo de Alessandra Santana Soares e Barros, “Quarenta anos retratando a deficie?ncia: enquadres e enfoques da literatura infantojuvenil brasileira”, apresenta uma pesquisa que reuniu 150 livros infantis, publicados nos u?ltimos quarenta anos no Brasil, que focalizam a deficie?ncia. A autora aponta mudanc?as no perfil dos autores. Se nos anos 1970 e 1980 eles eram escritos predominante por autores profissionais, deologicamente mais auto?nomos, nas duas u?ltimas de?cadas os escritores sa?o predo- minante iniciantes, e seus livros priorizam mensagens moralizadoras e informac?o?es te?cnicas a respeito da deficie?ncia abordada. Dessa mudanc?a resulta certo empo- brecimento das dimenso?es este?tica e lu?dica das obras litera?rias, ale?m de problemas conceituais que comprometem sua qualidade.

Com o objetivo de discutir a transdisciplinaridade no curri?culo do ensino ba?sico, Elisabete Cruz e Fernando Albuquerque Costa apresentam, em “Formas e ma- nifestac?o?es da transdisciplinaridade na produc?a?o cienti?fico-acade?mica em Portugal”, pesquisa sobre a produc?a?o cienti?fica portuguesa entre 1999 e 2009. Ale?m de variada gama de definic?o?es e vertentes a respeito do tema, demonstram que a transdiscipli- naridade na?o recebe ainda um reconhecimento significativo na produc?a?o analisada.

O u?ltimo artigo, intitulado “O letramento e o brincar em processos de so- cializac?a?o na educac?a?o infantil: brincadeiras diferentes”, de Vanessa Ferraz Almeida Neves, Maria Lu?cia Castanheira e Maria Cristina Soares Gouve?a, examina o lugar do letramento e da alfabetizac?a?o na educac?a?o infantil. Segundo as autoras, o ensino fundamental de nove anos contribuiu para intensificar tais atividades, geralmente entendidas como opostas a?s atividades lu?dicas na educac?a?o infantil. As autoras dis- cutem possibilidades de integrac?a?o entre tais atividades de modo que equilibrem a importa?ncia do letramento e da alfabetizac?a?o no ini?cio da escolarizac?a?o.

Na sec?a?o Espac?o Aberto, Murilo Mariano Vilac?a discute um tema de grande preocupac?a?o para todas as a?reas e campos de conhecimento: as ma?s condutas cienti?fi- cas. Em seu texto, “Ma?s condutas cienti?ficas: uma abordagem cri?tico-comparativa para in-formar uma reflexa?o sobre o tema”, o autor destaca que o pla?gio, a falsificac?a?o e a fabricac?a?o de dados formam a “tri?ade maligna” da ma? conduta que fere os princi?pios e?tico-cienti?ficos. Problematiza a influe?ncia do produtivismo nesse feno?meno crescente e aponta o papel fundamental das age?ncias cienti?ficas como forma de estimular as boas condutas no universo acade?mico, ultrapassando o mero policiamento.

Finalizando este nu?mero da RBE, Maria Ce?lia Borges e Claudenir Mo?dolo Alves retomam o tema do ensino superior na resenha do livro de Regis de Morais, Um abomina?vel mundo novo? O ensino superior atual (Paulus, 2011). Os autores enfatizam que, nessa obra, Regis de Morais discute os desequili?brios socioculturais que desesta- bilizam a educac?a?o em geral e, em particular, o ensino superior, ressaltando o predo- mi?nio do valor do lucro e dos prazeres imediatos, que comprometem a qualidade das relac?o?es pessoais e profissionais. O livro provoca reflexo?es que se situam na contrama?o dessa tende?ncia dominante a favor de uma educac?a?o com maior qualidade humana.

Desejamos a todos e todas uma leitura agrada?vel e inspiradora.

A Comissa?o Editorial Rio de Janeiro, janeiro de 2015.

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