Indicadores de avaliação, EaD e cotas são desafios para programas de pós-graduação, analisam Marcelo Soares e Alice Botler

Após dois anos à frente da coordenação nacional do Forpred, Marcelo Soares (UFU) e Alice Botler (UFPE) fazem um balanço da gestão como coordenador e vice-coordenadora, respectivamamente, e sinalizam alguns dos principais desafios que se fazem presentes para a pós-graduação na área da educação.

De um lado, o biênio 2021-2023, ainda em meio aos efeitos da pandemia de covid-19, foi marcado pelo desafio de manter o coletivo de coordenaras/es os programas de pós-graduação em educação unido, além da retomada das atividades presenciais.

Já os próximos anos deverão ser marcados pelo aprofundamento do debate sobre indicadores qualitativos, introduzidos na avaliação do quadriênio 2017-2020 e que ganharam peso no processo, assim como o acompanhamento dos estudantes e dos egressos dos programas.

Outros aspectos destacados, são o aprofundamento das possibilidades de organização da pós-graduação em educação, tendo em vista os programas strictu sensu e os programas profissionais, que hoje constituem o sistema, assim como a estrutura do financiamento dos programas, pautada pela avaliação.

Leia, a seguir, a entrevista com Marcelo Soares e Alice Botler e acesse o relatório de balanço de sua gestão frente ao Forpred.

Qual o balanço que dos desafios e avanços durante a sua gestão à frente da coordenação nacional do Forpred?

Marcelo Soares e Alice Botler: Assumimos a Coordenação Nacional do Forpred em um momento de muitas incertezas e indefinições.

De um lado, essas incertezas e indefinições decorriam da pandemia causada pelo coronavirus e a situação de emergência de saúde pública que ainda vigia no Brasil no final de 2021. De outro, pelas incertezas decorrentes do processo de judicialização da avaliação quadrienal da pós-graduação relativa ao período de 2017 a 2020.

Por certo, o principal desafio nesse momento inicial foi manter o coletivo de coordenadores e coordenadoras de programas de pós-graduação mobilizados e mobilizadas, ao mesmo tempo que procurávamos manter uma interlocução permanente com a Coordenação de Área [na Capes] sobre os encaminhamentos que seriam adotados.

Gostaríamos de destacar, também, o desafio na retomada das atividades presenciais no âmbito do Forpred pós-pandemia. Uma retomada que articulou encontros presenciais ao lado de outros momentos de debate e reflexão coletiva realizada online, por meio do canal de youtube da Anped. Foram tempos de muitas aprendizagens.

Soares e Botler também chamam a atenção para o

Pergunta: A avaliação da pós-graduação é um tema que mobiliza os programas e o Forpred. Qual a avaliação que vocês fazem da avaliação da pós-graduação em educação – ela dialoga com a realidade dos programas ou isso ainda é uma frente a se avançar?

Marcelo Soares e Alice Botler: No quadriênio 2017-2020 importantes mudanças foram introduzidas na avaliação da pós-graduação em geral e, do mesmo modo, na avaliação da pós-graduação em educação. Dentre essas mudanças destacaríamos aspectos como: o peso que as dimensões qualitativas passaram a ter nessa avaliação; a forte indução aos processos de autoavaliação e planejamento exigido dos PPG; a necessidade de os programas de pós-graduação demonstrarem um melhor acompanhamento dos egressos e dos próprios discentes.

Mas ainda que reconheçamos essas mudanças, por certo há frentes a avançar. E nesse sentido destacaríamos três aspectos. O primeiro aspecto diz respeito aos processos de avaliação dos indicadores, ou dimensões, qualitativos. Ainda há imprecisões na apreciação desses indicadores que necessitam ser mais bem trabalhados e demarcados.

Um segundo aspecto se refere à abordagem a ser dada sobre a avaliação dos indicadores relativos à inovação e impacto social. Estes são conceitos que também demandam um maior aprofundamento e diálogo na área.

E como terceiro aspecto que precisaria ser mais debatido na área destacamos os requisitos utilizados no acompanhamento dos egressos nos cursos de mestrado e nos cursos de doutorado. Esta é outra preocupação manifestada de modo recorrente pelos programas de pós-graduação da área da educação.

Pergunta: Atualmente, existem no âmbito da pós-graduação stricto sensu, os programas acadêmicos e os programas profissionais, que estão aumentando em número. Como vocês veem essas duas frentes interagindo no campo da pós-graduação em educação? Há interrelação entre elas? Poderia haver mais?

Marcelo Soares e Alice Botler: Não resta dúvida que os programas profissionais, são, hoje, ao lado dos programas acadêmicos, com os respectivos cursos de mestrado e/ou doutorado, elementos constitutivos da pós-graduação stricto sensu na área da educação. E em nossa avaliação, ambos são de fundamental importância para o desenvolvimento desta área enquanto campo de conhecimento, enquanto área científica.

Compreendemos que um dos elementos comuns entre os programas profissionais e os programas acadêmicos reside no desafio de contribuírem na produção de conhecimento acadêmico e científico na área da educação, sustentada em uma consistente fundamentação teórica e metodológica, que dialogue com os desafios impostos pelo desenvolvimento dos processos e práticas educativas e políticas da área da educação.

Mas, de outra parte, consideramos que ainda há outros elementos a serem melhor definidos em relação a cada uma dessas possibilidades de organização da pós-graduação, especialmente no que se refere às especificidades de cada uma delas e a questão do fomento aos programas de pós-graduação profissionais.

Pergunta: O que vocês destacam como os principais desafios dos programas de pós-graduação em educação na atualidade? Estamos no caminho para atingi-los?

Marcelo Soares e Alice Botler: Pensamos que há alguns temas que demandarão grande mobilização para aprofundamento das discussões em torno deles. Nesse sentido, reiteramos o que mencionamos sobre o fomento aos programas profissionais, mas, do mesmo modo, faz-se necessário aprofundar a discussão quanto ao próprio modelo de financiamento da pós-graduação que se subordina aos resultados da avaliação.

Esse modelo impõe uma lógica instrumental e pragmática para o desenvolvimento da pós-graduação, o que pode conduzir os PPG a se mobilizarem e organizarem subordinados a essa “avaliação”. Especialmente diante do fato de que os parâmetros de avaliação a serem utilizados nesse quadriênio – 2021-2024 – seguirão, basicamente, os mesmos parâmetros do quadriênio anterior.

E, na mesma perspectiva, os parâmetros de avaliação para o próximo quadriênio – 2025-2029, deverão ser igualmente definidos até o final do quadriênio em curso. Por certo, essa nova dinâmica demandará especial atenção e acompanhamento quanto às suas implicações no desenvolvimento da pós-graduação stricto sensu no país.

Do mesmo modo, outra demanda que bate à porta da pós-graduação stricto sensu no país está a oferta de cursos de mestrado e/ou de doutorado na modalidade a distância. Este é outro tema sensível e para o qual devemos estar atentos, especialmente pelo fato de que a oferta de cursos em outro nível por meio da EaD no campo da formação dos profissionais da educação tem se mostrado com muitas limitações e equívocos. Por certo este é outro tema importante para área.

Destacamos também o desafio de se formular e implementar políticas afirmativas inclusivas na pós-graduação stricto sensu. Isso significa mais do que assegurar a exigência de reservas de vagas nos processos seletivos para ingresso nos PPG. Para além dessa exigência, é necessário assegurar condições de permanência e desenvolvimento dos pós-graduandos e das pós-graduandas e suas respectivas pesquisas ao longo de seus cursos de Mestrado ou Doutorado, Acadêmico ou Profissional.

Entendemos que uma medida urgente a ser implementadas implicaria a destinação de novos recursos para a implementação de novas modalidades de bolsas de pós-graduação destinadas de modo específico às políticas afirmativas inclusivas.

E ressaltaríamos por último, mas sem a pretensão de esgotarmos as questões centrais, a necessidade de se aprofundar as análises quanto às implicações da pandemia do coronavirus no desenvolvimento da pós-graduação no país, especialmente quando nos defrontamos com uma expressiva queda na demanda de candidatos e candidatas para ingresso na pós-graduação stricto sensu. E esta queda é sentida também na área da educação.

 

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