Educação de Jovens e Adultos trabalhadores em tempos de isolamento social em decorrência da Pandemia/Covid19 – aspectos conceituais e limitações conjunturais | colaboração de texto

por José Carlos Moreira de Souza | GT 09 | Instituto Federal Goiano

       Explicar o processo educativo dos sujeitos que acessam a Educação de Jovens e Adultos envolve fatores que extrapolam o âmbito escolar, uma vez que seu caráter não é meramente pedagógico, mas essencialmente político-social. De modo introdutório, a presente análise almeja desvelar as implicações no processo educativo de estudantes da  Educação de Jovens e Adultos (EJA) e compreender o impacto da ocorrência da Pandemia da Covid19, síndrome respirátória que assolou a humanidade durante o ano de 2020 e cuja incidência no Brasil, impactou de modo particular as instituições de ensino, notadamente na adoção e domínio de intrumental metodológico para lidar com a diversidade implícita na EJA, numa conjuntura social, econômica, cultural e política, que reivindica um processo de isolamento/distanciamento como mecanismo para controlar/combater a doença. 

       Trata-se também de reforçar o percurso trilhado por parcela considerável dos jovens e adultos que acessam a EJA, considerando que no Brasil a escola tradicional não correspondeu aos interesses da classe trabalhadora e que a formação/qualificação nos modelos educacionais construídos ou difundidos na atualidade possa representar a reafirmação da hegemonia burguesa, num processo de transformação de diferenças em desigualdades. Do ponto de vista teórico, encontra-se na produção intelectual de Antonio Gramsci (2001; 1991) alguns fundamentos para pensar essa formação e o tipo de escola a qual está vinculada, sobretudo quanto ao seu papel e significado na construção do processo hegemônico, largamente discutido pelo teórico italiano na expectativa de resolver uma questão singular na revolução socialista que considerava a escola como a principal via de organização cultural. 

      Na discussão, Gramsci (1991) chamou a atenção para o aparente caráter democrático dessa escola de tipo profissional, como possibilidade de acesso dos indivíduos e que era  apresentada pelo Estado como uma escola democrática. Este autor concebeu a escola como uma das instituições mais importantes da sociedade civil, voltada à formação de novos tipos de intelectuais. Proclamada como “escola unitária” o modelo significou o início de novas relações entre o trabalho intelectual e o trabalho industrial, não apenas na escola, mas em toda a vida social daqueles que nessa foram inseridos. Nela, as classes subalternas teriam condições de adquirir recursos decisivos para romper com a subalternidade e assumir um maior protagonismo social em que todos teriam a mesma formação, a mesma oportunidade e o Estado seria encarregado de dar-lhes isto. Gramsci fez a crítica à divisão entre a escola clássica e profissional: “[…] a escola profissional destinava-se às classes instrumentais, ao passo que a clássica destinava-se às classes dominantes e aos intelectuais” (GRAMSCI, 1991, p. 118).

     A realidade educacional brasileira foi impactada pela Covid19 e a concepção gramsciana de escola se impõe, pois, o modelo de educação que experienciamos foi pensado e construído no momento histórico de passagem do modo de produção feudal para o capitalismo, colocando o foco na educação para o trabalho alienado. A eclosão da pandemia do novo coronavírus intensificou essa relação, com a constatação do uso de ambientes e/ou aplicativos tecnológicos desenvolvidos para atividades pedagógicas remotas. O fenômeno se acelerou na rede básica de ensino após o Conselho Nacional de Educação publicar em 28/04/2020, o Parecer CNE/CP nº 05/2020, homologado pelo MEC. O documento autorizou a realização de aulas remotas, mediante a utilização de plataformas virtuais em substituição às aulas presenciais. As medidas tomadas evocam as insuficiências do trabalho docente no que toca a educação a distância (EaD) no país, pois “Ao mesmo tempo em que o trabalho docente pode diferenciar-se em suas características de forma sutil ou bem delineada em relação a outras profissões, esse trabalho não escapa dos processos que circundam configurações hodiernas do mundo do trabalho” (AMARAL, 2013, p. 89).  

    As insufiências também são apreendidas ao considerar todos os estudantes iguais, privilegiando a linguagem formal, desprezando as diferenças econômicas e sociais, bem como seus capitais, inclusive o cultural, expresso por exemplo, no falar e no agir dos estudantes. Essa lógica é consubstanciada no trabalho docente que legitima a desigualdade e se constitui um espaço de reprodução dos valores e linguagens consideradas hegemônicas, em detrimento da cultura dos estudantes inseridos na EJA, em maioria oriundos dos extratos sociais vinculados às classes trabalhadoras socioecomicamente desfavoráveis, condições que foram acentuadas com a incidência da Pandemia. 

   Por fim, não seria exagero reivindicar que, nesse momento, impactado pelos desdobramentos de uma pandemia que assolou o mundo inteiro, a possibilidade de fortalecer a EJA em sua concepção de educação para o trabalho, enquanto desafio histórico, tendo em vista a insegurança promovida por uma Pandemia não experienciada em tal magnitude pelas gerações atuais, mas que impõe para toda a sociedade a (re)definição dos caminhos possíveis para uma formação humana, crítica e cidadã. 

Referências

AMARAL, S. de S. Os tutores na educação superior a distância: análise das dissertações e teses no portal Capes no período de 2006-2012. 211f. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal de Goiás, 2013. 

GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo. Volume 2, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 

GRASMCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 8ª edição. Rio de Janeiro-RJ: Civilização Brasileira, 1991. 

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