O retrocesso na educação de jovens e adultos e a tentativa de resgatar estigmas | colaboração de texto por Edmar Garcia e Mariana Teodoro

Edmar Augusto Semeão Garcia
Mestrando em Educação pela Universidade Federal de Alfenas. Especialista em Ensino de Sociologia pela UFSJ.
Bacharel em Ciências Humanas pela UFJF. Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela UFJF.  

Mariana Teodoro Nascimento
Mestranda em Educaçao pela Universidade Federal de Alfenas
Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais

 

Recentemente o MEC lançou um edital de consulta pública sobre a educação de jovens e adultos em nosso país. Nela, consta um documento para chamamento de contribuições e texto sobre a modalidade; suas especificidades; questões norteadoras. O documento não aprofunda diversas questões cruciais para o entendimento da modalidade e dos atores que nela estão inseridos, a destacar: formação de professores; discussão sobre raça, gênero e juventude; e currículo. Tais questões circundam a modalidade e configuram-se como pontos-chave para a discussão. 

Contudo, facilitar a aprovação dos sujeitos da EJA através de mecanismos como EJA combinada e EJA direcionada; associação dos estudantes a endemia pelo fato de não estarem ainda escolarizados, parece não entenderem que a modalidade não é uma compensação e sim direito reconhecido inclusive na Carta magna do nosso país em 1988. O texto opta por reacender esse caráter patológico em torno do jovem ou adulto que ainda não está totalmente escolarizado. Apesar da incipiência e grande necessidade de desenvolvimento dos estudos a fim de modificar certos preconceitos ainda vistos, temos visto grandes estudiosos trabalharem diversas questões não contempladas no texto do Governo ao longo dos anos.  

O primeiro deles diz respeito ao currículo. Se queremos de fato o direito reconhecido desses sujeitos, perpassa pela alteração no currículo das licenciaturas em nosso país. A rigor, a EJA ainda continua com um espaço reduzido nas grades. Quando se tem esse espaço. É preciso para além de um maior espaço, um investimento na formação do docente que leciona nas IES disciplinas voltadas para a modalidade. Será um grande avanço para o reconhecimento dos sujeitos na EJA, tendo em vista a necessidade de reconhece-los como sujeitos de conhecimentos e aprendizagens como diz Marta Kohl (1999). 

Em outros termos, a importância de entender as idiossincrasias dentro da sala de aula, está relacionada ao entendimento que não são estudantes tábula rasa. E tampouco que a ausência da escola em suas vidas significou afastamento social. Pelo contrário, o fato de estarem longe (muitos por anos) não os impediu da inserção ao mercado de trabalho. Portanto, investir na formação dos professores, ou seja, a formação permanente destes, é trabalhar para o reconhecimento do direito a escolarização independente da idade. Vemos cursos voltados para a capacitação do educador que atua na modalidade como a UNEB ao ofertar uma especialização sobre a modalidade. É fundamental esse tipo de investimento.

O segundo elemento fundamental é a necessidade de debater raça, gênero e juventude. É importante vindo sobretudo do MEC a noção de que a EJA abarca em sua maioria pardas(os) e negras(os) assim como mulheres. É imprescindível que se debate e esteja norteado nos documentos. Porque perceber os sujeitos que estão inseridos na modalidade é reconhecer o público que historicamente se afastou da escola por diferentes razões e dar protagonismo aos atores em suas ações. Além disso, não menos importante é a discussão nos documentos sobre juventude. E, a partir daí perceber que muitos jovens estão inseridos dentro das salas de aulas da EJA. Nesse sentido, entender o perfil heterogêneo da sala para que os principais estimulantes a evasão escolar dos jovens não sejam os docentes. Para isso, reitero a necessidade do investimento em formação. A qualificação é base para este reconhecimento.

Por fim, o terceiro elemento fundamental e intrinsecamente já está nos elementos anteriores é o currículo. O jovem e adulto que estão na EJA não chegaram até ela sem conhecimentos. Por isso, é relevante considerar a construção de um currículo adaptado as diferentes realidades e conhecimentos experenciados por eles ao longo da vida. O texto do Governo aborda aprendizagens ao longo da vida. Porém, não é de se surpreender que foge da ideia essencial desse termo. 

Tais questões estiveram de fora do texto promovido pelo MEC. Há de ressaltar o período curto para propostas do público bem como o caráter bastante alienado da realidade vivenciada por docentes e discentes na EJA. Não se pode associar aos estudantes que estão analfabetos a patologia. Diversos pesquisadores já refutaram essa concepção errônea e discriminatória aos estudantes. Estar analfabeto não lhes impediu ocupar outras figurações sociais. A pasta que deveria dar exemplo infelizmente atravessa um momento onde é a primeira a trabalhar para reduzir direitos e investimentos na educação. Um retrocesso que estamos pagando caro. Sobretudo os grupos que mais carecem da educação pública.

É preciso romper com ignorâncias. Para ontem!

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