GT 14 – 30 ANOS – PRESENTE! | Colaboração de texto por Adalberto Carvalho Ribeiro (UNIFAP) e Ana Lorena Bruel (UFPR)

Coube a nós a grata satisfação em escrever este texto que faz alusão aos 30 anos de existência do Grupo de Trabalho Quatorze (GT 14), Sociologia da Educação, vinculado a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Educação (ANPED). São três décadas de intensa produção científica com importantes contribuições para a consolidação e avanços da Sociologia da Educação (SE) brasileira.

Neste artigo queremos destacar desde aspectos referentes a trajetória formal do nosso GT e sua rigorosa produção científica, passando pelos pesquisadores que estiveram nas funções de proa no grupo, assim como revelar a característica informal principal que cercam as relações acadêmicas (e pessoais!) quando se dão as reuniões anuais e sessões de trabalho no GT 14.

Inicialmente, três estudos podem ser mencionados. Márcio da Costa e Graziella M. D. da Silva publicaram em 2003 o trabalho Amor e Desprezo: o velho caso entre sociologia e educação no âmbito do GT 14 realizando o primeiro importante balanço da produção do GT – período 1994-2001 – demonstrando, entres outros achados, que a) havia, na participação, predominância quase completa das regiões Sul e Sudeste porque 80% das propostas aprovadas eram originárias dessas regiões, b) a fortíssima influência francesa nas produções, e, c) quanto às temáticas tratadas no grupo, 50% delas se referiam a “estudos sobre família/meio social de estudantes e de ensaios teóricos acerca de nossas preocupações.” (pag. 109). Quanto às abordagens metodológicas os autores constataram a baixa realização de trabalhos quantitativos e a “total ausência” (p. 115) de trabalhos que utilizaram fontes estatísticas secundárias, como dados censitários, para além da estatística descritiva.

Outro estudo, de Georgia Sobreira dos S. Cêa e Camila F. da Silva, denominado Mosaicos das sociologias da educação no Brasil: mapeamento da produção do GT-14 da ANPED na primeira década do século XXI, publicado em 2015, cujo escopo é muito parecido com o anterior faz o “mapeamento” referente ao período 2001-2010. Analisou acervo composto por 146 artigos subdivididos em 128 trabalhos, 11 pôsteres e 7 trabalhos encomendados. Nesse estudo também o predomínio das regiões Sudeste (participação de 52%) e Sul (20%) continua, mas Centro-oeste (6%) e Nordeste (18%) vem aumentando pouco a pouco suas participações. Quando as autoras verificaram as referências por países, a França prossegue na dianteira com 44% de influência, seguido dos Estados Unidos com 19%. Por outro lado, as temáticas se diversificaram e parece que a preferência pelo objeto “família/escola” perdeu força, uma vez que as autoras procurando os “sujeitos” estudados chegaram aos seguintes, mais recorridos: alunos/jovens com 31%, professores com 27% e famílias registrou 18%. O instrumento de campo tipo questionário apareceu com 11,5%.

O terceiro estudo, de Jonathan Henriques do Amaral e Mônica de la Fare, publicado mais recentemente, em 2017, procurou no âmbito do GT 14, especificamente, o uso de abordagens quantitativas no período 2005-2015 exatamente para constatar, ou não, alguma mudança em curso, uma vez que o quadro apresentado em 2003 por Márcio e Graziella apontou para preferencias por entrevistas, análise documental e observação. Jonathan e Mônica consultaram 157 trabalhos e selecionaram 44, o que equivale a 28% do total dos artigos constatando, assim, que o número de trabalhos que utilizaram o método quantitativo aumentou.

Referente ao terceiro estudo acima, observamos que recortando apenas a segunda década dos anos 2000, a partir de 2011 até 2015, os autores selecionaram para análise 26 trabalhos, o que corresponde a uma amostra de 38,88% do quinquênio. Segundo Jonathan e Mônica, o “maior número de trabalhos quantitativos foram em 2011, com aproximadamente 54% […] e 2015 com aproximadamente 43%. ” (pag. 66). Em relação às temáticas a sistematização deles chegou ao seguinte resultado: a) relações de alunos com seus processos de escolarização, 34%; b) relações entre família e escola, 25%; c) insucesso escolar, 16%; d) desigualdades e educação, 14%; e) gestão escolar, 11%. Esses estudos, quanto às fontes, estão divididos em: consultas a dados primários com 61%, a dados secundários com 32% e a ambos com 7%. A predominância de referências internacionais francesas foi novamente constatada.

Os três estudos mencionados mostram que o GT 14 vem mudando no decorrer das três décadas. De trabalhos cujas abordagens eram quase exclusivamente do tipo qualitativas com uso de dados primários, predominantemente de autores das regiões Sudeste e Sul, o grupo foi se diversificando com o surgimento (ainda tímido) de outras regiões como Centro-oeste e Nordeste – e de modo residual aparece trabalhos da região Norte – com o deslocamento preferencial da temática família-escola (embora ela ainda seja recorrente) para outros objetos e sujeitos, e com o aparecimento de trabalhos quantitativos que utilizam dados secundários, inclusive com estatística mais sofisticada, para além da meramente descritiva.

A importância do GT 14 também se configurou em produções editoriais de livros que, dentre outros, vale a pena citar: a) Família & Escola – trajetórias de escolarização em camadas médias e populares, organizado por Maria Alice Nogueira, Geraldo Romanelli e Nadir Zago, publicado em 2000; b) Sociologia para Educadores, organizado por Maria de Lourdes Rangel Tura, em 2001; c) Sociologia da Educação – pesquisa e realidade brasileira, organizado por Lea Pinheiro Paixão e Nadir Zago, publicado em 2007; e d) Família, Escola e Juventude – olhares cruzados Brasil-Portugal, organizado por Maria Alice Nogueira, Juarez Dayrell, José Manuel Resende e Maria Manuel Vieira, e que foi publicado em 2012. É densa, portanto, a produção do GT 14 – Sociologia da Educação – da ANPED.

Tanto trabalho assim envolveu muitos pesquisadores. Neste espaço é impossível mencionar todos e todas que foram fundamentais para chegarmos até aqui. Mas, para não passar em branco, arbitrando um critério objetivo para citar as pessoas, resolvemos relacionar no quadro abaixo todos os que estiveram na coordenação e vice coordenação do GT (aos colegas dos comitês científicos temos profundo agradecimento e registramos quão valorosos são e foram nessa árdua tarefa de avaliação, assim como aos pareceristas ad doc), desde o início dos trabalhos, há três décadas atrás.

Nos valemos do trabalho de Débora Mazza e de Márcia dos Santos Ferreira (enquanto coordenadora e vice coordenadora) que elaboraram importante memória cronológica dos membros que estiveram nessas funções e que o disponibilizaram na página do GT 14, no sítio da Associação.

Quadro 1 – Relação Coordenadores e Vice Coordenadores do GT 14/ANPED no período 1990-2020

Fonte: https://anped.org.br/grupos-de-trabalho/gt14

Embora o quadro acima revele que o GT iniciou em 1990, desde o ano anterior ele funcionou na condição de Grupo de Estudo (GE – uma espécie de estágio gestacional) obedecendo às normas do Estatuto da ANPED, à época. Foram Maria Alice Nogueira e Tomás Tadeu da Silva, ao retornarem dos seus cursos de doutorado realizados no exterior, que tomaram a iniciativa em propor o Grupo de Trabalho. Passado o tempo do “estágio probatório” surgiu, assim, o GT 14 – Sociologia da Educação – vinculado a ANPED.

O GT 14, nas suas “formais” reuniões científicas, tem demonstrado uma grande capacidade de acolhimento daqueles pesquisadores, jovens ou não, experientes ou não, que vão lá apresentar seus trabalhos. O grupo, mesmo sendo composto por experimentados (e renomados) pesquisadores nacionais tem dialogado, respeitosamente, com todos os autores de matizes diversas e níveis científicos que chegam às reuniões nacionais. Nós, os atuais coordenadores, somos relativamente “novatos” no GT com uma década de participação e podemos testemunhar em favor desta assertiva porque desde a primeira vez que fomos apresentar nossos trabalhos sentimos o acolhimento e a empatia na coletividade, ao mesmo tempo que percebíamos o rigor científico das contribuições e observações em relação aos trabalhos apresentados.

Em entrevista para nossa colega Inês Teixeira (ainda inédita) no ano de 2019 Maria Alice Nogueira, a quem nos referimos carinhosamente como uma das “mães” do GT, afirmou que “é voz corrente” o clima respeitoso e acolhedor que circula no GT 14 da ANPED: “Quem vai lá sai da reunião fazendo esse comentário!”

O nosso GT, de fato, tem esse clima cordial, acolhedor, sem abrir mão do debate científico com os posicionamentos de praxe, de argumentos, de preferencias metodológicas, de quadros analíticos, críticas às escolas de pensadores, mas, tudo em “um ambiente leve”, onde até as disputas ocorrem no jogo da diplomacia acadêmica, no cuidado com as palavras, no entendimento com o outro. Essa é uma característica que permeou a construção científica, o debate das produções que circulam no GT Sociologia da Educação, da ANPED.

Além de reunir pesquisadores nacionais o GT 14 também promoveu diálogos com respeitados estudiosos internacionais, dentre os quais podemos citar: Bernard Lahire, Daniel Thin, Agnes Van Zanten e Maria Manuel Vieira.

O GT 14 é importante e marcante pelas várias razões que falamos acima: 1) contribui sobremaneira para a construção e sofisticação científica da SE no Brasil, 2) as pessoas que dele faz parte, seja nas instâncias de coordenação, nos comitês científicos, como pareceristas, assim como os proponentes à apresentação de trabalhos, costumam ser rigorosos com o “fazer” ciência, mas, 3) sem perder de vista que somos um coletivo buscando construir, fazer reflexões sobre diversos objetos da SE no Brasil, e, de modo muito comprometidos, nos balizamos pelas relações interpessoais de respeito, acolhimento, amizades e formação de redes que tornam o GT cada vez mais uma instância prazerosa para todos nós.

GT 14 – Sociologia da Educação – presente!

Adalberto Carvalho Ribeiro (UNIFAP) – Coordenador 2020-2021

Ana Lorena Bruel (UFPR) – Vice Coordenadora 2020-2021

 

 

 

 

 

 

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