A invisibilidade do Professor em tempos de pandemia: que vida grita? | Colaboração de texto por Tania Mara Delboni (GT 12) e Andreia Teixeira Ramos (GT 22)

Diante do cenário da pandemia causada pelo Covid-19 e das inesperadas tensões e conflitos que surgiram (e ainda surgem), acirrando as desigualdades sociais e raciais existentes no Brasil, é importante salientar alguns aspectos que atravessam, nesse momento, a profissão docente, seja dos professores e professoras das escolas/instituições públicas e particulares de educação básica e ensino superior. Assim, professores e professoras, em diferentes regiões do nosso país, viram-se capturados pela força de um vírus que, ao retirá-los das salas de aula, lançaram-no, fortuitamente, para o mundo do trabalho remoto. A mesma força avassaladora e impetuosa causada pela possibilidade de contágio do vírus − e que provocou a necessidade do isolamento físico −, fez proliferar situações de isolamento e solidão social no sentido de que, repentinamente, a própria docência foi expropriada de sua força maior: a presença e os encontros coletivos e cooperativos. E a vida grita…

Vários desafios, conflitos e questões surgiram diante de uma “nova” condição trazida pelo trabalho remoto (home office), seja em relação às diferentes condições tecnológicas (baixa qualidade de acesso à internet e baixo limite de dados móveis, insuficiências de recursos tecnológicos próprios, tais como celular, computador, câmera, microfone), seja em relação às condições mínimas de local para trabalhar, pois a moradia agora, passa a ter uma nova finalidade: a de “home office”. Vale ressaltar que todos os artefatos usados para exercer a docência nessa “nova” condição têm sido custeados com o salário do próprio docente. E a vida continua a gritar…

Além desses, outros desafios concernentes à prática docente, apareceram pelo caminho com o trabalho remoto e fizeram com que os docentes passassem a realizar atividades que, antes, com as aulas presenciais, não eram necessárias, dentre elas o planejamento de inúmeras atividades tais como gravação, edição e postagem de vídeo; postagem de aula e de atividades, atendimento via chat na plataforma virtual, e claro, o domínio de diferentes ferramentas digitais.

As instituições de ensino superior e as secretarias de educação municipais e estaduais começaram a instaurar, para enfrentar o Covid-19, comitês operativos de emergência, planos de biossegurança e de contingenciamento, planejamento para a fase de recuperação etc. Para exemplificar, citamos aqui o Comitê Operativo de Emergência (COE) do Ministério da Educação (MEC), que se reuniu, pela primeira vez, no dia 16 de março. Um dos objetivos do referido comitê era acompanhar a situação nas unidades de educação básica, profissional e tecnológica e superior, através de um sistema online que permitia a integração de dados sobre o coronavírus. Segundo o Portal do MEC,1 a intenção do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) era liberar R$ 450 milhões às escolas públicas, como antecipação do repasse das duas parcelas do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) Básico. A medida era considerada “[…] importante para auxiliar as instituições na compra de álcool em gel, sabonete líquido, toalhas de papel e outros produtos de higiene, por exemplo”.

O objetivo do PDDE é contribuir para a manutenção e a melhoria da infraestrutura física e pedagógica, o reforço da autogestão escolar e a elevação dos índices de desempenho da educação básica. Apesar de considerarmos extremamente importante a liberação do recurso às escolas para a compra de antissépticos e outros produtos de higiene, independente da presença do vírus da Covid-19, ressaltamos a invisibilidade de professores e professoras dos cotidianos escolares na composição dos comitês locais, bem como a desconsideração e invisibilidade daqueles que efetivamente sabem o que é fundamental para o trabalho pedagógico e que gritam, incessantemente, por condições outras para afirmam a vida.

O trabalho remoto trouxe ainda para a atualidade outros elementos, estes relacionados à saúde docente física e psicológica, uma vez que os docentes passam mais horas diante da tela ao mesmo tempo que lidam com questões domésticas. Como o universo da educação básica tem a singularidade, constituída historicamente, da presença feminina, destacamos aqui um ponto que merece atenção. Diz respeito às mulheres professoras cuja sobrecarga de trabalho profissional e doméstico aumentou consideravelmente, uma vez que elas exercem múltiplas atribuições ao mesmo tempo: mulher-mãe-professora-pesquisadora-esposa-e-e-e… Em tempos de pandemia, essas situações concretas nos provocam reflexões, levando-nos a pensar que é preciso criar e recriar movimentos e redes insurgentes no interior deste cenário, no sentido de refazer e redesenhar modos outros de seguirmos com o trabalho docente exercitando a alegria e a esperança (FREIRE, 2009, p. 72) alimentadas pela arte de viver.

Cenas de vidas que gritam: Reunião de planejamento (23 pessoas na sala virtual, mas somente seis abrem a câmera): “Dirce, por que você não abre a câmera?”; “Porque a minha filha está tendo aula no computador que tem câmera e este aqui não tem”; “Eu vou desligar a câmera porque tenho que amamentar o meu bebê”.; “Eu não abro a câmera porque estou também fazendo faxina aqui em casa”; “Vocês estão me ouvindo?”; “Você está com o microfone desligado”; “Beth, desliga o microfone”; “Eu não sei quem está falando, vocês têm que dizer o nome”; “Tem alguém com o microfone ligado, está dando eco”; “Não posso participar da reunião no dia agendado, porque eu divido o computador com o meu filho, que tem aula”. “Minha conexão caiu”; “Gente, não estou ouvindo”.

Apesar da invisibilidade, professoras e professores, em uma postura ético-política de afirmar a vida assumiram o compromisso de exercer a docência, mesmo que de forma remota. Temos visto uma multiplicidade de experimentações, de criação de possíveis, de redes de solidariedade e de amizade. Resistência é invenção e as inventividades e as artes de fazer de professoras e professores tem contagiado e fortalecido as diferentes redes que habitamos.

Com estas ideias-forças referentes “às diversas redes educativas que formamos e nos formam como docentes e todos [e todas] como cidadãos [cidadãs], trabalhadores [trabalhadoras], seres políticos, sociais e históricos (ALVES, 2019, p. 115), os docentes, em meio à pandemia, tiveram que ampliar e recriar ‘práticasteorias’ e outros espaçostempos em seus cotidianos nas redes educativas com os praticantespensantes, no esforço de reinventar os modos de aprenderensinar na educação (ALVES, 2019), com a produção e o uso de lives, webnários, painéis online, podcasts, acoplados com as redes sociais e plataformas virtuais, envolvendo também cursos online, além da criação de jornais e revistas eletrônicas, de coletivos de poesias e de cineclubes, entre outras formas de criação cotidiana e virtual.

Como diz Caio Fernando de Abreu: A vida grita. E a luta, continua…

REFERÊNCIAS

ALVES, Nilda. Sobre redes educativas que formamos e que nos formam. In ALVES, Nilda. Práticas pedagógicas em imagens e narrativas: memórias de processos didáticos e curriculares para pensar as escolas hoje. São Paulo: Cortez, 2019: 115 – 133.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 39. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

1 Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=86341> Acesso em 3 de setembro de 2020.

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