Educação, irracionalidade e resistência | Colaboração de texto | por Maria Rosa Coutinho (GT 14|UFSCar)

No Brasil, a pesquisa e ensino de qualidade encontram, neste momento político, grande dificuldade para se fazerem entender frente à irracionalidade que domina o poder vigente.

Pandemia à parte, considero que o projeto ideológico do governo Bolsonaro avança no campo da educação condicionando as instituições de ensino dos diferentes graus a uma política desacreditada já há muitas décadas.

A ausência de uma visão universal, racional e, agora, mais laica, empurra a ciência e a educação para um labirinto formatado sem uma saída para os nossos problemas sociais e culturais.

A dificuldade que a sociedade hoje tem para discutir projetos de ensino e aprendizagem, bem como sobre o financiamento ideal para este movimento, deve-se, sobretudo, à centralização de ideias, muitas delas voltadas para a moral e os costumes, desvinculadas das iniciativas de pesquisas científicas ou de uma política pública que responda às exigências sociais.

Sem pretender mencionar aqui outros tempos em que a educação também foi refém de outras políticas e de um planejamento secundário, aponto nos dias atuais diversas deliberações contrárias a um processo positivo no que diz respeito ao ensino e pesquisa.

A visão destorcida sobre pesquisas científicas e sobre o papel das universidades, por exemplo, traz à tona a desqualificação de pessoas que assumiram o ministério da educação até aqui.

Também, o desconhecimento sobre as diretrizes regionais de educação a partir de cada realidade, leva a ação ministerial para uma generalização na educação e cultura, o que empobrece o próprio projeto político respaldado apenas pela sua ideologia.

Nos primeiros meses de mandato do governo Bolsonaro, ficou claro que o Enem ( Exame Nacional do Ensino Médio) não é prioridade e com isso os jovens estudantes de baixa renda, passaram a carecer de suporte e orientação segura para o acesso às instituições de ensino. Assim, a educação superior, cuja gratuidade é a única condição para o jovem, parece estar se tornando um peso indesejável para o governo que apenas manifesta preocupação com as posturas políticas das universidades.

Entre todas as incertezas que pairam sobre o novo ministro da educação, Milton Ribeiro, a mais preocupante, ao meu ver, é a sua parcialidade política e ideológica, o que compromete sua fidelidade à ciência , bem como a sua função ministerial no governo.

Com muito esforço, o congresso conseguiu derrubar o projeto mal intencionado do governo em relação ao Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) no mês de julho e a derrota sobre este item sinaliza a capacidade que a sociedade organizada tem para implantar um novo olhar sobre a educação brasileira.

Na verdade, a educação parece ser um estorvo para o poder em questão quando o ministério da economia se ocupa em tentar erguer os índices econômicos para garantir a continuidade deste governo em detrimento de setores sociais e culturais.

Penso ainda que, neste momento de paralisação decorrente da pandemia, é possível as instituições de ensino e conselhos municipais de educação continuarem a discussão em torno do orçamento municipal destinado à educação e das diretrizes locais, de acordo com as próprias necessidades sociais e pedagógicas.

Enfim, diante desta realidade histórica mais difícil, acredito que o pensamento afirmativo em relação à educação no Brasil deve ser o caminho. É preciso pensar, imaginar situações, resolver problemas, analisar o que os outros estão fazendo, avaliar o que se faz em relação aos outros. Pensar permite-nos tomar decisões e fazer escolhas que possam transformar as estruturas políticas, como também agregar um maior conhecimento cultural.

 

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