Manifesto GT 21 | A justiça racial e as vidas negras importam

O Grupo de Trabalho Educação e Relações Étnico-Raciais da ANPEd (GT-21) vem a público manifestar profunda indignação e repúdio frente aos recentes acontecimentos que escancaram o racismo estrutural responsáveis por moldar a sociedade brasileira e todas as sociedades forjadas pela colonização. De diversas maneiras a população negra, em diferentes partes do mundo, vem sendo espoliada diante do não reconhecimento da sua humanidade. O que se vê é a expressão histórica de uma exposição das pessoas negras a um contínuo e progressivo processo que tenta destituirlhes de dignidade e direitos plenos.

O Brasil é atravessado por genocídios e violências que marcam nossa história, nossas experiências, personagens e lugares. Essas esferas fazem referência ao vivido como artefatos que organizam os fatos e mobilizam nossas ações. Assim, é do presente que estamos a nos debater, o tempo histórico de hoje exige-nos uma mobilização que ressoa da nossa experiência coletiva de luta pela vida.

Há um provérbio akan que diz “não é errado voltar atrás e buscar o que você esqueceu”., Desse provérbio deriva a palavra Sankofa que, no interior da escrita africana adinkra, é imageticamente traduzida pelo ideograma de um pássaro mítico que voa para frente enquanto olha para trás com um ovo em sua boca, simbolizando o futuro. Esse provérbio representa o movimento de lembrar e esquecer que habita a gênese da aprendizagem histórica, operante não apenas o que, mas como devemos lembrar, esquecer e narrar em nossa história. A experiência da população negra marcada pelo sofrimento, atravessada pela morte e pela resistência propiciou a invenção de outros laços de pertencimento. Essa população, que ascendeu aos bancos universitários, que têm construído narrativas positivas sobre si, produzido uma estética e cultura, e que escolhe todos os dias a vida e a luta contra a morte, não esmorecerá.

É na força histórica do presente que mobilizamos nossa relação com o passado e hoje é mais do que fundamental afirmar nosso compromisso com a construção de uma sociedade radicalmente justa e antirracista. Em diversas partes do mundo, eclodem movimentos por uma justiça efetiva para as pessoas negras e as demais pessoas tratadas como minorias sem direitos. A afirmação de que as vidas negras importam agrega uma luta global pelo fim da violência contra as mulheres, contra as pessoas LGBT, contra os povos indígenas, pela preservação do meio ambiente, pela a erradicação da espoliação e da pobreza e pela derrocada do racismo.

O GT-21 se solidariza com as perdas das vidas negras ceifadas pelo racismo e se mantém engajado politicamente na ação de não permitir que essas vidas sejam esquecidas.

Coordenação do GT 21 (2020-2021) e Comitê Científico GT 21

Eugenia Portela de Siqueira Marques – UFMS

Ana Cristina Juvenal da Cruz – UFSCar

Silvani dos Santos Valentim – CEFET/MG

Débora Cristina de Araujo – UFES

Lucimar Rosa Dias – UFPR

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