GTs 09, 22 e 18 da ANPEd divulgam Nota Reflexiva sobre a catástrofe climática no Rio Grande do Sul

Os Grupos de Trabalho Trabalho e Educação (GT 09), Educação Ambiental (GT 22) e Educação de Pessoas Jovens e Adultas (GT18) da ANPEd divulgaram uma  Nota Reflexiva sobre a catástrofe ambiental no Rio Grande do Sul.

No documento, as pesquisadoras e pesquisadores analisam as relações entre a “nova ordem mundial ambiental” e a  hegemonia do sistema do capital, a ampliação das desigualdades econômicas, a escalada armamentista e as catástrofes climáticas – muitas delas, como a que aconteceu no Rio Grande do Sul, já previstas.

Diante desse cenário, a Nota defende, além da responsabilização dos culpados, a busca de “aspirações emancipadoras”, as quais passam pela Educação Política e a Ciência comprometidas com a construção de uma sociedade que pensa e vive a relação dos seres humanos com a natureza numa perspectiva socioambiental crítica e sustentável em prol do bem-estar coletivo e do futuro do planeta.

A Nota foi enviada aos Ministério da Educação, Ministério do Meio Ambiente, Ministério do Trabalho e Emprego – Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (SENAES)/MTE, Ministério de Ciência e Tecnologia, Ministério dos Povos Indígenas, Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e Casa Civil.

Leia a Nota Reflexiva dos GTs 09, 22 e 18 na íntegra ou baixe o documento aqui:

A catástrofe climática que irrompeu no Rio Grande do Sul e as lições que não alcançamos

A apreensão da materialidade – eis o primeiro item que pode unir diferentes cientistas e educadoras/es, apesar dos diferentes matizes teóricos, mesmo com o pressuposto de que não se apreende a realidade de uma vez por todas e de que as mediações (de raça, de linguagem, de cultura, de classe, de grupo, de gênero…) são constituidoras do humano. Vale dizer que essa materialidade concreta que se quer apreender, por vezes precisa passar por problematizações, participar do acúmulo de conhecimento que está na educação intencional, enveredar por estranhamentos, perspicácias e ousadias. Esses foram os elementos que fizeram Rachel Carson compreender a “Primavera Silenciosa” que chegou até sua terra natal. Ela simplesmente percebeu isto: os pássaros tinham ido embora e não havia mais o som que sempre faziam… Sua pesquisa foi buscar compreender por que isso ocorria, assim foi desvelando todo esse enredo até chegar às indústrias químicas, responsáveis pelos pesticidas que, em nome do controle das ditas pragas, acabaram atingindo os pássaros. Por conta disso, ela foi difamada, acusaram-na de ser contra o desenvolvimento, questionaram sua sexualidade, foi chamada de comunista. A sua ciência tinha tanta potência que do anúncio chegou à denúncia. Esse parece ser o caminho inexorável da ciência quando consegue seguir firme e livre: qualificar a política. A denúncia pode não ter sido o propósito inicial da Rachel Carson, mas os resultados da sua ciência inevitavelmente a fizeram emergir. Carson nos anos 60 também nos alertava de que a “Era das Consequências” estava por chegar… Essa Era chegou!

A catástrofe anunciada que vemos ocorrer neste momento no Rio Grande do Sul, precisamos dizer, não foi a primeira dessa “Era das Consequências” e nem será a última. Esse é mais um episódio contundente, que ceifa centenas de vidas humanas e não humanas (fauna e flora), desconfigura territórios, nos comove, nos aflige, nos desola… A pandemia da Covid-19 é uma catástrofe de outro tipo, mas pode ser associada à nova ordem mundial ambiental em que vamos entrando. Nessa nova ordem planetária: a hegemonia do sistema do capital se recompõe; a desigualdade econômica e social se amplia; a escalada armamentista não arrefece; a geopolítica se depara com a radicalização de grupos e de suas ações; a divisão do trabalho, da produção de alimentos, de bens e de serviços vão distinguindo os países; não se vê possibilidade de fato de estabelecer um Estado Global; as políticas internas nacionais rivalizam em torno de ataques ou de proteção à democracia, aos direitos sociais e políticos. Tudo isso tendo como pano de fundo o agravamento de tragédias ambientais. O que está acontecendo no Rio Grande do Sul é um explícito testemunho de que o país efetivamente entrou na era das tragédias ambientais e humanitárias – duas dimensões materiais da vida cotidiana que não se separam.

Crítica ao Sistema do Capital – eis o segundo item que pode unir diferentes cientistas e educadoras/es. Dessa forma, podem ser adjetivadas/os como cientistas críticas/os e educadoras/es críticas/os, que veem a indissociabilidade entre o desenvolvimentismo do capitalismo e a degradação socioambiental. Não há mais espaço para reflexões mediadoras, revisionistas ou conciliatórias e, muito menos, não há mais tempo a perder com negacionismos. Definitivamente, apologetas do capitalismo desenvolvimentista-predatório são responsáveis pelas tragédias ambientais por que passamos e continuaremos a passar. A catástrofe climática que irrompe no Rio Grande do Sul, como sendo o maior volume de chuvas registrado de todos os tempos em solo gaúcho – e que continua a aumentar, não está isolado nem sincronicamente, nem diacronicamente. No mesmo momento em que esse fenômeno eclode, no centro do país ocorre também uma onda de calor com números bem expressivos para um período de outono. Onda de calor, que, segundo os meteorologistas, está servindo de bloqueio atmosférico, uma das variáveis que está contribuindo para agravar a situação do Rio Grande do Sul.

Ao longo das quatro últimas décadas pelo menos, numa rápida pesquisa em que se compara mapas atuais com mapas antigos (até mesmo no Google Earth), é possível ver como as regiões do Centro-Sul do país foram modificadas pelo agronegócio. O mundo monocromático do agronegócio tomou o Centro-Oeste, vulnerabilizou seu clima, desestabilizou seu sistema hídrico. O Pantanal mato-grossense, por exemplo, não é o mesmo que era retratado na novela da Manchete de 1990, agora é visivelmente mais seco. De fato, parece não haver pauta convergente entre cientistas e educadoras/es críticos com “homens de negócio” e com “homens do agronegócio”. Todas as propostas políticas que poderiam estar associadas a um suposto agronegócio verde, sempre ficam intimidadas por ações da bancada ruralista no Congresso, muito atuante para liberar defensivos tóxicos, propor marco temporal para as terras indígenas, ser contra as demarcações, atuar contra as ações do IBAMA, atrapalhar o trabalho do ICMBIO, buscar reconhecimento de terras griladas… Portanto, “Agronegócio verde” não existe!

Ainda dá tempo? – Sem alarmismo, mas com a legitimidade de quem é ancorada/o na Ciência, essa é uma questão importante para cientistas e educadoras/es críticos enfrentarem. Antes, vale só ajustarmos em dizer que no sistema do capital – considerando sua lógica de exploração, a incontrolabilidade de sua economia e seu estado de violência – suas Indústrias, suas cidades, suas atividades primárias em geral também são vocacionadas à poluição e à degradação. Vale sempre lembrar que quem constrói riqueza na sociedade é a classe trabalhadora e que, mesmo em contradição, a classe dominante anseia explorar essas/es trabalhadoras/es ao máximo, sem que sejam exauridas/os. Essa contradição parece não ocorrer quando se trata de meio ambiente, porque tudo leva a crer que o sistema do capital pode sim levar a natureza a seus limites ou ao menos para uma situação de ameaça para a humanidade. Se a degradação ambiental não é uma contradição para o capitalismo, é uma contradição para o ser humano. Dará tempo se essa percepção ficar mais evidenteclara e as pessoas, organizadas coletivamente, puderem lutar e conquistar outros caminhos políticos… No momento, não está fácil de ver isso, porque o sistema social, sob o controle da economia neoliberal, não tem como se virar para resolver os problemas ambientais, considerando que implementa inúmeras guerras, continua insaciável por energias de base fóssil e ainda busca novos minerais para o futuro dos aparelhos tecnológicos… Difícil acreditar que esse sistema social possa se inclinar favoravelmente ao meio ambiente, considerando que desde o século passado guarda estoque de armas nucleares capazes de destruir mais de quatro planetas Terra… Trata-se de uma irracionalidade tamanha que a esperança precisa ser recriada sobre novas bases. Semelhante a Gramsci, sigamos no “pessimismo da razão, no otimismo da vontade”. Diante disso, a questão está posta: será possível segurar a queda do céu diante de nós na forma de tormenta? Será possível adiar o fim do mundo enquanto se intensifica um mundo insustentável à vida, imerso na lógica da necropolítica da monocultura, racista, patriarcal e capitalista?

Em busca de aspirações emancipadoras… Então, buscar por aspirações emancipadoras é uma proposta de István Mészáros, crítico do sistema do capital e um dos maiores pensadores do século XX (e um pouco do XXI). Num ato semelhante ao de Paulo Freire quando nos propôs “esperançar”, Mészáros indicou que é possível realizar algo que perpasse pela Educação e a transcenda. Por certoClaro, vale dizer que Mészáros guardava sim uma desconfiança sobre a Educação Formal, mesmo porque é um lugar que é um espaço em que a classe dominante se faz presente, no gerencialismo, nas fundações e em tantas formas de privatização da educação pública e, sabemos, não está disposta a ceder facilmente… Por outro lado, se é assim, é um lugar de disputa política fundamental. Em 2023, no Brasil foram 68 milhões de pessoas com mais de 18 anos que não concluíram e nem estão frequentando a Educação Básica. A luta pela educação como prática social e política pública passa também pela luta por uma escola pública popular, com conhecimento científico, democrática e emancipadora, ao mesmo tempo que busca integrar saberes produzidos pelos povos originários e classes populares. Algo que Mészáros e Freire pareceram nos mostrar é a importância da Educação Política, pois defenderam muito que participássemos da educação realizada nos espaços de luta, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos partidos políticos… Mészáros e Freire foram apoiadores do MST. No fim das contas, sendo uma Educação Política, é uma Educação que toma partido, não conciliatória… Assim deve ser a Ciência também.

Denúncias precisam ser feitas, culpados precisam ser responsabilizados (sejam diretamente ligados aos episódios extremos, sejam por suas ações prévias), políticas equivocadas que estamos realizando nas últimas décadas precisam ser desmontadas, manifestações precisam ocorrer com mais intensidade… Essa busca por aspirações emancipadoras, em meio à catástrofe climática que estamos midiaticamente acompanhando no Rio Grande do Sul, nos desafia a repensar radicalmente nossas práticas educacionais e científicas. A Educação Política e a Ciência comprometidas são fundamentais na construção de outra sociedade, que precisa pensar/viver a relação do ser humano na/com a natureza numa perspectiva socioambiental crítica e sustentável em prol do bem-estar coletivo e do futuro do planeta. Precisamos garantir essa contundência à Educação Crítica, antes que só nos reste fazer uma “Educação para as Contingências”…

Em Assembleia Ordinária, realizada em 26 de outubro de 2023, no âmbito da 41ª Reunião Nacional da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), as/os filiadas/os registraram a importância da luta política frente às disputas por certos modelos de sociedade e de suas relações com a natureza. Naquela ocasião, vivíamos os efeitos de uma seca histórica na região amazônica e, por meio de Moção liderada pelo GT 22 (Educação Ambiental), acompanhada unanimemente por aquela Assembleia, defendemos a importância de expor o debate por qual sociedade estamos lutando: seja por uma sociedade ambientalmente comprometida com algum valor de encantamento por nosso mundo, seja por uma sociedade globalizada e tecnocrata, desconectada de quaisquer valores locais em nome de uma cultura de mercado. Seguimos atentas/os (como tem sido comum a todo o histórico de luta dos GTs aqui reunidos) às possibilidades de fortalecimento dessas lutas frente ao avanço do capital e de suas diferentes formas de expressão, essas formas que se conectaram em direção à catástrofe socioambiental mais recente e ainda em curso, desta vez no Rio Grande do Sul.

Seguimos firmes diante do compromisso em preservar e fortalecer os princípios da formação humana integral, colaborando ativamente para a construção de uma sociedade mais consciente, crítica e comprometida com o meio ambiente e com a justiça climática. Contamos com uma comunidade científica diversa e altamente qualificada, disposta a ampliar e a efetivar a formação continuada de docentes em educação ambiental, educação inclusiva, educação popular, educação profissional e educação de jovens e adultos. Diante disso, exigimos a centralidade da educação ambiental, educação popular e inclusiva, educação profissional, educação de jovens e adultos, educação dos povos do campo, das águas e da floresta, indígena e quilombola (na articulação entre elas e com os níveis da educação nacional) socialmente referenciadas para o desenvolvimento solidário, anticapitalista e responsável com o meio ambiente.

Exigimos respeito às Universidades, aos Institutos Federais e aos Centros de Pesquisa envolvidos nesses campos, reivindicando investimento público no sentido de que as políticas públicas para educação ambiental, educação popular, educação profissional, educação e movimentos sociais e educação de jovens e adultos sejam efetivamente recompostas e materializadas transversalmente em todas as ações do atual governo.

Rio de Janeiro, 14 de maio de 2024.

Miriam Fábia Alves
Presidenta da ANPEd
Biênio 2023-2025

 

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