Nota de desagravo pela retirada do nome de Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva de lista de personalidades negras da Fundação Cultural Palmares

Grito de angústia

À memória de meu pai

Dê-me a mão.

Meu coração pode mover o mundo

com uma pulsação ...

Eu tenho dentro em mim anseio e glória

que roubaram a meus pais.

Meu coração pode mover o mundo,

porque é o mesmo coração dos congos,

bantos e outros desgraçados,

é o mesmo.

Foi sem surpresa que em 2020, ano no qual vimos manifestações antirracistas em todo o mundo, a atual presidência da Fundação Palmares anunciou a retirada de 27 pessoas da Lista de Personalidades Negras. 

Dentre as pessoas retiradas, consta o nome da Profa. Dra. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, professora Emérita da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e vinculada ao GT 21 Educação e Relações Étnico-Raciais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. 

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, Somghoy Wanadu-Wayoo, ou seja conselheira integrante do Conselho do Amiru Shonghoy Hassimi O. Maiga, chefe do Povo Songhoy, no Mali; Professora Emérita da Universidade Federal de São Carlos; admitida, pela Presidenta da República Dilma Rousseff, na Ordem Nacional do Mérito, no Grau de Cavaleiro, em reconhecimento de sua contribuição à educação no Brasil. Títulos e homenagens não lhe faltam nem lhe faltarão, pela sua trajetória de luta e liderança pela igualdade racial, na educação e na pesquisa.

Uma onda de anti-intelectualismo que assola o Governo Federal retirou-a da listagem de personalidades negras da Fundação Cultural Palmares. Entre uma torta e torpe confusão de diferentes listas postadas a cada dia em redes sociais, com argumentos pobres e sem sustentação para a perseguição de personalidades que fizeram e fazem muito pela igualdade racial, a página em sua homenagem foi retirada do site da FCP. 

A Diretoria da ANPEd e o GT-21, lamentam e repudiam o ato. O mesmo não se sustenta e não corresponde à história da Fundação Palmares e das pessoas que a constituíram. Nem mesmo faz a referência devida à trajetória de homens e mulheres negras cujas vidas foram dedicadas à luta contra o racismo para a construção de uma sociedade justa e igualitária, que não será possível, se não for antirracista. 

A atual condução da Fundação Palmares tenta reescrever a história brasileira, retirando dela a sua parte negra viva. Essa ação mostra uma disputa não apenas pelo passado, não somente pelo modo como nós contamos a nossa história, mas pelo presente. O que está em disputa é o nosso presente e, sobretudo, o nosso futuro. 

Nosso momento é de grito de angústia pela atrocidades do racismo na sociedade brasileira e, nas palavras do poeta, nossos corações são cinza como os do que são vitimados cotidianamente pelo racismo, em suas formas brutais ou suas formas indiretas, mas sempre cruéis e insidiosas, como a referida medida.

Mas nós sabemos histórias, aprendidas à sombra das palmeiras, às margens do Nilo e em muitas escolas. E Petronilha nos ensinou e aprendeu muitas destas histórias, ensinou e aprendeu com Ádria Santos, Alaíde Costa, Benedita da Silva, Conceição Evaristo, Elsa Soares, Emanoel Araújo, Gilberto Gil, Givânia Maria da Silva, Janete Rocha Pietá, Janeth Rocha dos Santos Arcaim, Joaquim Carvalho Cruz, Jurema da Silva, Léa Lucas Garcia de Aguiar, Leci Brandão, Luislinda Valois, Marina Silva, Martinho de Vila, Milton Nascimento, Paulo Paim, Sandrade Sá, Servílio de Oliveira, Sueli Carneiro, Terezinha Gulhermina, Vanderlei Cordeiro de Lima, Vovô do Ilê, Zezê Mota. E aprendeu e ensinou com Oswaldo de Carmargo. 

Pois é no presente que a vida e obra da Profa. Dra. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, floresce. Sua trajetória e seu exemplo estão na história brasileira e ecoará no futuro, que será de uma sociedade justa e igualitária. Aos demais, que hoje se prestam a isso, seus nomes figuraram como linhas de registro nos livros de história. Livros que serão escritos por pessoas que terão lido e se inspirado nos ensinamentos e pensamentos de pessoas como a Profa. Dra. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. Que ensinou, como ninguém sobre nossas nossas raízes profundas e prenhes. E aprendemos.  E vamos gritar! Nosso grito de angústia é também de afirmação de nossa ancestralidade e identidade!!        

É o mesmo coração dos que são cinzas

e dormem debaixo da Capela dos Enforcados ...

é o coração da mucama

e do moleque;

e eu sei muitas canções de ninar gente branca,

sei histórias,

todas feitas à sombra das palmeiras,

ou nas margens do Nilo...

Eu conheço um grito de angústia,

trovejante,

que deve estarrecer todas as minhas amantes

que tenho decerto...

 

Eu conheço um grito de angústia,

e eu posso escrever este grito de angústia,

e eu posso berrar este grito de angústia,

quer ouvir?

"Sou um negro, Senhor, sou um... negro!"

Oswaldo de Camargo, 

15 Poemas Negros

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