Entrevista com Felipe Tarábola (USP) e Marilia Pontes Sposito (USP)| artigo RBE n.71 |"Entre Luzes e Sombras: o Passado Imediato e o Futuro Possível da Pesquisa em Juventude no Brasil"

A edição n.71 da Revista Brasileira de Educação (RBE) será publicada em três módulos em 2017 - a primeira parte estará disponível ainda neste mês de outubro na plataforma SciELO. Dentre os trabalhos presentes na edição, estará artigo de autoria de Felipe Tarábola (USP) e Marilia Pontes Sposito (USP), intitulado "Entre Luzes e Sombras: o Passado Imediato e o Futuro Possível da Pesquisa em Juventude no Brasil". Confira entrevista com os autores:

Qual a importância de refletir sobre as pesquisas em juventude?

Como afirmou o sociólogo italiano Alberto Melucci, a juventude pode ser vista como uma espécie de ponta de iceberg, pode-se antever nos jovens uma mensagem sobre aspectos fundamentais que orientam a vida social no presente, abrindo  perspectivas para o futuro. Ao analisar os desdobramentos ou retraimentos de alguns temas de pesquisas sobre jovens no Brasil a partir de 20 anos de publicações na RBE, pretendíamos indicar alguns elementos sobre como este campo de pesquisa tem refletido sobre as experiências e desafios de vida desse momento do ciclo de vida, quais temas ganharam destaque e quais ficaram obscurecidos.

 

Marilia Pontes Sposito (USP)

 

As ocupações estudantis de 2016 são temas férteis para pesquisas futuras, de acordo com o texto. Levando em conta a reivindicação desses estudantes, por escolas mais horizontais e mais espaços de autonomia e fala, é possível observar mudanças na própria forma de pesquisar esses temas? 

Os métodos e técnicas de investigação têm que estar de acordo com os problemas de pesquisa e devem se adaptar às características dos sujeitos investigados, cabendo o desafio aos pesquisadores de serem ao mesmo tempo rigorosos e inventivos, construindo uma espécie muito particular de bricolagem. Então, a aproximação aos jovens que rejeitam os diferentes modos de autoritarismo e demandam cada vez mais horizontalidade nas relações exige muita atenção do pesquisador. Entretanto, e sem desconsiderar de forma alguma a relevância política desse fenômeno, é preciso relativizar a surpresa e novidade da atuação de jovens estudantes, já que, em perspectiva histórica, por um lado a atuação política e potencialmente transformadora dos jovens foi justamente um dos marcos de algumas pesquisas consideradas como constituintes desse campo no Brasil, sobretudo pela obra dos professores Octavio Ianni e Maria Alice Foracchi,  enquanto por outro a pressão e mobilização social em relação ao prolongamento da escolaridade é longeva entre nós. O processo de reivindicações pelo aumento da escolaridade aos poucos foi gerando também uma demanda por qualidade da educação. Por essas razões a pesquisa precisa historicizar seus objetos de modo a evitar a miopia do presente como afirma Alberto Melucci.

Quais os desafios que podem surgir, levando em conta o momento político que vivemos, para as pesquisas sobre juventude?

Consideramos que neste momento difícil, de polarização política e cultural, a pesquisa precisa se voltar para um leque mais amplo de temas e de sujeitos. Transversalidades como gênero, classe social e raça devem ser incorporadas para evitarmos a fragmentação dos sujeitos. Temas difíceis também devem ser escrutinados, pois sempre é mais confortável realizar pesquisa sobre processos que apresentam afinidades com nossas convicções. Se reiterarmos essas orientação temáticas corremos o risco de desprezar aspectos fundantes da nossa sociabilidade e não colaborar para o conhecimento de realidades mais complexas que constituem a sociedade brasileira e os segmentos juvenis. Um esforço teórico deve ser realizado no sentido de desnaturalizar processos sociais, identidades e formas da ação coletiva, ampliando indivíduos e grupos a serem investigados. O melhor caminho para o avanço do conhecimento indica a necessidade de empreendimentos investigativos coletivos, envolvendo grupos de pesquisadores. Indica, também, a necessidade de encontros sistemáticos para troca de resultados, balanços críticos e diagnóstico dos novos desafios.

Felipe Tarábola (USP)

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